Raiva e Perdão: Use com Moderação


Vivemos em uma sociedade onde a maioria das pessoas ainda prega que as mulheres não devem sentir ou demonstrar raiva, que devem perdoar completamente as ofensas que recebem e, preferencialmente que devem oferecer a outra face (dar segundas, terceiras ou infinitas chances) como prova de seu caráter e de sua bondade.

Esse conselhos normalmente são direcionados às mulheres. Espera-se das mulheres que sejam receptivas, passivas e que perdoem com facilidade. Para os homens , a regra não é a mesma. No universo masculino, o perdão é muitas vezes visto como sinal de fraqueza. Os homens são incentivados a reagir às ofensas. Por isso, este texto é exclusivamente direcionado às mulheres.

Repetir essas ideias sem refletir sobre elas cumpre o simples objetivo de ditar regras genéricas de comportamento para as mulheres sem considerar os seus custos emocionais e psicológicos. Funcionam como uma espécie de domesticação ou adestramento feminino.

Raiva legítima

A raiva é um dos sentimentos humanos mais polêmicos e condenados. Isso porque é um sentimento poderoso com um alto poder subversivo. A raiva é rebelde, é transformadora, não aceita um poder sem questioná-lo, muito menos tolera abusos de poder.

Quem insiste em negar ou reprimir a raiva ou está insconscientemente cometendo uma violência contra si mesma, ou vive uma utopia delirante de que só devemos ter "sentimentos bons" ou está sendo hipócrita, não nega a utilidade da própria raiva mas condena a raiva que a vê nas outras pessoas.

É importante fazer uma observação: quando os gatilhos que disparam a raiva são banais e o sentimento de raiva é desproprocionalmente intenso, indica que há alguma insatisfação, algum outro problema mais sério que está se escondendo nessas pequenas coisas: um problema que merece ser investigado e analisado com cuidado. Neste texto, eu vou tratar de outra raiva: a raiva legítima que costuma ser negligenciada.

São inúmeras as situações que podem nos deixar com raiva. Algumas das mais graves incluem situações coercitivas: situações onde há constrangimentos e desrespeitos sistemáticos, agressões emocionais e psicológicas constantes, poder abusivo e injusto na família, entre outras. Essas são situações que despertam uma raiva legítima.

Muitas vezes as queixas de uma mulher que está sendo alvo dessas agressões costumam ser negligenciadas ou banalizadas por outras pessoas , muitas vezes por amigos e familiares. Estes muitas vezes aconselham a mulher a perdoar e esquecer, quando não a condenam por sentir raiva. "Não sinta raiva. É feio", dizem com um genuíno desinteresse em qualquer coisa que ela tenha a dizer.

Não devemos esquecer que a raiva cumpre funções muito importantes em nossas vidas:

- Ela nos alerta de que existe algo errado que deve ser revisto. - Ela nos alerta para os perigos psicológicos da tolerância excessiva. - Alerta para a necessidade de desenvolver e aprimorar nossos instintos. - Alerta para a necessidade de estabelecer limites claros nas nossas relações. - Alerta para a necessidade de desenhar uma relação saudável consigo e uma forma mais madura e saudável de se relacionar com as outras pessoas. - Alerta para a necessidade de delimitar e defender com unhas e dentes um território seguro que não deve ser invadido por ninguém.

A raiva é uma mestra, uma professora que tem muito a nos ensinar se estivermos dispostas a ouvi-la. E definitivamente precisamos ouvi-la, especialmente nós, mulheres.

Perigos de dar a outra face

Quando somos aconselhadas a abandonar a raiva, a reprimi-la, negá-la ou a perdoar algo ou alguém, devemos ter muito cuidado com esses conselhos. Isso porque muitas vezes são conselhos "ofertados" de forma bastante constrangedora: em geral, somos intimadas a perdoar alguém.

Quem nos intima, muitas vezes, não está minimamente interessado(a) em conhecer a nossa história, nossas dores e as razões da nossa raiva. Interessa-se apenas em nos dizer como devemos nos comportar. E geralmente, se interessam em nos colocar em apuros.

Suas mensagens costumam ser sempre muito parecidas com esta: "perdoe fulano(a), ele (a) não deve estar fazendo por mal; não perdoar fulano (a) é intolerância. É maldade".

É uma situação muito delicada: a mulher que foi vítima de uma injustiça, além de ter de lidar sozinha com isso, além de não contar com nenhum apoio ou incentivo, ainda fica com a obrigação de perdoar qualquer ofensa não importa a sua gravidade para não ser julgada e condenada pelas pessoas que lhe são caras . É uma situação dramática.

Quer saibamos ou não disso ou não, pressões e intimações nesses casos acabam funcionando como práticas covardes. São frutos de valores gravemente distorcidos que beneficiam indireta e duplamente aquele(a) que costuma ofender ou desrespeitar. A vítima de ofensa é desautorizada no seu direito legítimo de sentir raiva e de escolher, por si mesma, se quer ou não perdoar. A vítima deve perdoar. (Pressionar alguém nesse sentido sem ouvir com muito cuidado suas motivações é indício de uma notável covardia).

Uma das grandes dificuldades de se perdoar alguém é que nossa interpretação cristã do perdão é bastante equivocada. O perdão é normalmente associado à ideia de dar a outra face (ou uma segunda chance) a alguém. Há um perigo sério em acatar esse conselho apressadamente: nós acabamos nos privando de aprender as importantes lições que a raiva tem a nos ensinar.

Nós amordaçamos a raiva e impedimos que ela fale. E algumas vezes o que ela tem a nos dizer é que deveríamos nos afastar definitivamente de algumas pessoas se tivéssemos um pingo de amor próprio. Enquanto a raiva pode estar tentando nos ensinar a hora de "dar um basta" em algumas situações e pessoas, nós simplesmente a obrigamos a calar a boca de uma forma que poderia se chamar seguramente de covarde e masoquista. Acabamos por nos tornar cúmplices, por tabela, de quem nos ofende sistematicamente cometendo violência contra nós mesmas.

A tendência de quem se priva do direito de sentir raiva é de se calar frente às injustiças. Por carecer de coragem ou incentivo, a pessoa tenta se iludir, tenta acreditar que consegue lidar com as ofensas (aparentemente fazendo pouco caso delas) até que chega um momento que fica exausta por viver carregando uma carreta de ofensas e desrespeitos diários.

Negar a raiva prejudica o desenvolvimento dos nossos instintos básicos de autocuidado e autoproteção que, se fossem bem desenvolvidos, nos ajudariam a evitar situações aviltantes no presente e no futuro.

Já é bem conhecido da maioria de nós o fato de que o sentimento do medo nos ajuda a evitar ou fugir de situações de perigo e garantir a nossa sobrevivência. Menos conhecido é o fato de que a raiva, se usada com sabedoria, pode garantir a nossa sobrevivência psíquica e nos ajudar a ser mais saudáveis.

Quem nunca ouviu falar de alguma mulher que foi sistematicamente desrespeitada (às vezes por toda a família) e se comportava de forma totalmente pacífica e submissa? Quem nunca ouviu falar de uma mulher que se apagou completamente em uma situação assim? Defender-se faz parte da sobrevivência psíquica. Essa mulher não consegue se defender e vive padecendo de alergias constantes, doenças inexplicáveis que vêm e vão sem causa aparente.

Todas nós mulheres precisamos aprender a usar essa poderosa força a nosso favor. É não é amordaçando a raiva ou se forçando a ser boazinha. É preciso aprender a usar os próprios intintos e deixar falar a natureza selvagem.

É fácil identificar uma mulher que perdeu o contato com seus próprios instintos: ela raciocina demais, analisa as questões por todos os ângulos, mesmo quando é gravemente ofendida procura compreender os que a ofenderam, e tragicamente procura muitas vezes compreender e justificar as más atitudes alheias.

É uma mulher que faz um esforço descomunal para ser simpática mesmo em situações onde deveria rosnar, ranger os dentes e "soltar fogo pelas ventas". Normalmente acusada de falsa, ela costuma apresentar um comportamento excessivamente gentil e submisso. Mais do que falsa, em geral estamos diante de uma mulher acoada. Aliás, nessa situações específica, a simulação mascara uma batalha inteiror: uma batalha entre os seus sentimentos e os valores da educação que receberam. Pobres mulheres, acusadas de falsidade, por fora são gentis, por dentro, atormentadas.

Essas mulheres não aprenderam a reconhecer ou a lidar com a raiva. Elas foram condicionadas a serem gentis através de uma educação preocupada apenas em adestrar seus comportamentos, desconsiderando e negligenciando seus sentimentos legítimos e profundos.

Algumas mulheres furiosas têm o costume de criticar, criticar, criticar tudo que lhes aparece pela frente. Todas nós conhecemos alguém assim. Essas mulheres transparecem uma insatisfação perene com todos e com o mundo. A raiva desautorizada tem o poder de fazer isso. A mulher furiosa normalmente está cercada por pessoas que a pressionam a ser boazinha. O resultado dessas pressões e da sua falta de habilidade em lidar com a raiva é que ela vaza pelos poros. A mulher que não consegue expressá-la diretamente com quem precisa, que não consegue resolvê-la ou se libertar dela se torna chata.

No entanto, muitas mulheres com raiva costumam ser gentis e doces quando na verdade gostariam de punir, depreciar ou extravasar a raiva. Mal sabem elas que reprimindo a raiva, acabam por perpetuar a violência contra a própria psique. Às vezes, a perpetuação desse autoflagelo chega a superar aquele que originou a raiva. A solução é clara: é hora de deixar a raiva sair.

A raiva como mestra

É um crime reprimir a raiva. A raiva é uma força muito poderosa que precisa ser contida, canalizada e usada da maneira mais correta e mais saudável para nós. Aprendendo a manejá-la, fazemos descobertas importantes: a raiva pode ser propulsora de muitas decisões acertadas, de ações produtivas, de soluções criativas para a nossa vida e nossos problemas, e de trabalhos absolutamente belos e originais.

Permitir-se aprender com a raiva e aprender a usá-la a nosso favor requer de nós a firme recusa em reprimi-la. Isso não quer dizer que devemos irromper em fúria a cada injúria recebida.

Quando ela vem nos visitar, precisamos tolerá-la. Mais do que isso: precisamos convidá-la a entrar para tomar um chá conosco, e ouvir com muita atenção tudo o que ela tem a nos dizer. E acredite: a raiva fala muitas coisas importantes. Precisamos ser gentis com ela. Precisamos ser gentis conosco.

Ser gentil consigo significa compreender que a raiva não surgiu gratuitamente, ela não é uma megera caprichosa a ser expulsa de nossas casas.

Nessas situações, precisamos dar um tempo para nós mesmas: um descanso para a própria raiva, um descanso para nós. Uma boa alternativa é buscar o isolamento voluntário: buscar a solidão e a introspecção. Podemos passar um tempo sozinhas para ouvir a nossa própria voz interior. Precisamos acima de tudo resistir à tendência masoquista de ficar julgando se nossas emoções estão corretas ou erradas. Isso simplesmente não interessa. Esses julgamentos não ajudam em nada a resolver os problemas. Reprimir a raiva e julgá-la só a reforça e reforça as razões que a provocaram. Reprimir a raiva é validar a ofensa. É dar razão e poder à ofensa e ao ofensor.

Podemos usar a raiva criativamente. Usá-la para a própria atividade criativa. Todas as emoções que transbordam podem virar alguma forma de arte. Podemos escrever, pintar, rabiscar, cantar, dançar, lutar, encontrar situações criativas para reorganizar as nossas vidas e solucionar os nossos problemas. Podemos fazer qualquer coisa que permita transformar emoções em produtos criativos da imaginação.

Muitas obras de arte, canções, contos, crônicas, poemas foram criados a partir da raiva. Não tem pretensões de fazer arte? Escreva um diário: ajuda a lavar a alma e organizar os pensamentos.

Todas nós temos um fogo transformador capaz de transformar uma emoção grosseira e mal acabada em uma energia nova para ser liberada sob a forma de criação. Esse é um uso inteligente da emoção. Temos a matéria prima,só precisamos lapidá-la. Somente aprendendo a usar a raiva, conseguimos cumprir a etapa do perdão que nos liberta do mal-estar.

O perdão nunca deve ser imposto, senão corre o risco de se tornar mais uma forma de coação. Quem está sentindo raiva não precisa ser levado a crer que está errado. Precisamos sobretudo desfazer os equívocos e ter uma noção clara do que realmente significa perdoar.

Perdão

O perdão está longe de ser uma tolerância absoluta. Está ainda mais longe de ser uma segunda oportunidade ou o oferecimento da outra face. Até porque o resultado mais provável para o nosso "belo gesto" de oferecer a outra face é receber uma bela bofetada. Não acredita? Teste, mas faça isso por sua conta e risco. Não vale me culpar depois. ;-)

Em alguns casos, perdoar nem mesmo significa voltar a conviver com quem a ofendeu. É você que vai julgar a gravidade da ofensa. É você que vai decidir com base nos seus valores e nos seus limites quem merece ou não uma segunda chance. Dar uma segunda chance a alguém tem pouco ou nada a ver com o perdão, porque é possível dar uma segunda chance alguém sem nem mesmo ter conseguido perdoar. Quantas boas mulheres dão segundas chances aos seus amigos e familiares enquanto ainda estão sendo consumidas pela raiva? Eu conheço uma penca delas.

Confesso que eu mesma tive durante muito tempo uma ideia equivocada de perdão. Eu também acabava perpetuando a minha própria raiva legítima sempre que julgava que não deveria sentir raiva. Tudo aquilo que reprimimos acaba por nos bloquear em algum momento.

Sempre que reprimimos ou negamos a raiva, começamos a nos sentir bloqueadas em várias áreas de nossas vidas. Sentimos bloqueadas as nossas capacidades de compreender os problemas e encontrar soluções originais para pôr fim às nossas aflições. Sentimos bloqueados inclusive os nossos impulsos criativos. Por quê isso acontece? Porque reprimindo a própria raiva, estamos negando e reprimindo a nossa própria história. Estamos negando que houveram pessoas e acontecimentos capazes de suscitar uma raiva legítima. Em outras palavras, estamos tirando a nossa própria razão, dando razão aos que nos deram esses conselhos quiçá até a quem nos ofendeu. Pode observar outras mulheres no seu dia a dia: as que reprimem a própria raiva, negam ou minimizam os próprios sofrimentos e justificam as más ações dos outros. Costumam acreditar que estão sempre erradas, que são menos inteligentes e menos capazes de julgar as coisas.

Elas mentem para si mesmas de que não foram tão ofendidas, que suas emoções são equivocadas, ou que são culpadas e responsáveis pelas ofensas que sofreram. Paradoxalmente, essas mulheres acham que estão certas em negar a si mesmas porque estão sendo bondosas com os outros ao agir contra a própria natureza.

Parecem esquecer que a primeira forma de bondade é a bondade consigo mesmas. Essas mulheres são incentivadas a se isolar de si mesmas e negar a própria história. Destituída de seus próprios instintos e pontos de referência, destituídas de seus próprios critérios e valores, só lhes resta tentar se adequar ao que os outros esperam delas.

Mulheres que agem assim, costumam sempre ouvir dos "idiotas do bem" que elas não devem sentir raiva, que sentimento de raiva é coisa de gente má, que é errado, feio, etc. Perseguidas pela neurose da bondade, elas entram em parafuso e se aniquilam frente aos outros. (Os "idiotas do bem" são aqueles que não perdem um minuto de suas vidas em ouvir as queixas dessas mulheres mas correm para pregar pseudomoralismos).

Uma das consequências de se reprimir a raiva é que chega um momento que a mulher já nem mais é capaz de saber se está com raiva, muito menos capaz de libertar dela. Sentindo e negando a raiva, essa mulher vive com complexo de culpa. Se sente culpada por sentir raiva que acaba se tornando serva dos caprichos de seus familiares, filhos, companheiros, muitas vezes exatamente daqueles que a ofenderam. O julgamento negativo da raiva leva à culpa que leva à servidão. A mulher se cobra uma bondade excessiva. Se você está nesse caminho, pare agora!

Perdoar não é perder os limites e ceder aos caprichos. Perdão é outra coisa bem diferente. Perdoar é simplesmente se recusar a guardar o lixo que os outros deixaram em você. É uma atitude interna, um ato de bondade consigo mesma, um compromisso de amor próprio. Não tem nada a ver com outras pessoas.

Alguns pedidos de desculpas nem mesmo são desejáveis. Algumas pessoas sadicamente pedem desculpas sem nem mesmo estarem arrependidas. Prova disso é que não se preocupam em mudar seus comportamentos. São aqueles pedidos de desculpas usados como chantagem emocional: para colocar a mulher na obrigação de perdoar e transferir para ela a responsabilidade.

Muitas retratações públicas seguem essa lógica: são feitas para colocar no colo da mulher a culpa a responsabilidade pela agressão que ela sofreu! (Responsabilização da vítima: só eu que me espanto com isso?) Quem faz isso age com malandragem: sabe que a maior parte das pessoas acha ingenuamente lindo ver um pedido de desculpas público e começa a constranger a mulher a perdoar. Elas nem ao menos estão interessadas em saber a gravidade da ofensa e da injustiça que a vítima sofreu. A mulher que só queria se livrar das humilhações acaba por ser exposta em praça pública para ser apedrejada pelos(as) "idiotas do bem".

É muito simplista (e cruel) a ideia de que a mulher deve conceder segundas, terceiras, infinitas chances a quem a feriu seja lá quem for.

O que realmente precisamos é confiar nos nossos próprios instintos e parar de dar ouvidos a essas pessoas que agem como "gurus de coisa nenhuma". Essas fórmulas "fáceis e baratas" que nos vendem diariamente em qualquer conversa informal, além de serem fórmulas falsas, nos custam muito caro: podemos pagar um preço muito alto de nossa autenticidade e autonomia, e acabar caindo em uma resignação triste e apática, um comportamento submisso e subserviente. São fórmulas na verdade absurdamente caras.

O que nós mulheres realmente precisamos é afiar nossos instintos. Quando nossos instintos funcionam bem, eles sabem nos dizer precisamente a hora de conter e a hora de liberar a raiva. Eles sabem nos ajudar a separar o joio do trigo e nos dizer exatamente quem merece e quem não merece uma segunda chance.

Permitam-me uma obviedade: a maldade existe e não é culpa do inimigo. As pessoas podem ser cruéis e algumas nos ferem por comodida, preguiça ou prazer. Não sejamos ingênuas.

Quem se preocupa em agir com bondade e se torna refém dessas maldades, precisa rever os seus conceitos. Ser uma pessoa boa não significa ser idiota. Em primeiro lugar, é preciso abandonar o perfeccionismo. É preciso ser boa consigo mesma. Perdoar não implica em voltar às boas com quem nos ofendeu. Às vezes significa apenas dar adeus e se recusar a remoer as ofensas antigas e não pensar mais na pessoa: o velho e conhecido "seguir em frente".

Perdão: abandono de uma dívida

O perdão absoluto é o abandono de uma dívida. É um processo interno, interior, emocional e psicológico. É quase uma auréola de santidade.

Em um primeiro momento, perdoar significa deixar o problema respirar. Deixar passar: dar umas férias para os assuntos que nos ferem. Dar um descanso para nós mesmas. Tirar umas férias dos problemas.

Em um estágio posterior, perdoar significa exercitar o autocontrole: estabelecer um prazo para si mesma enquanto pode remoer o assuntona sua cabeça. Nesse estágio, nos deparamos com a necessidade de tomar uma decisão consciente: precisamos decidir por evitar em dar uma punição a quem nos ofendeu.

Não estou dizendo que quem nos ofende não mereceria alguma espécie de punição. Às vezes, mereceria. E como! Estou apenas afirmando que qualquer punição pode gerar uma retaliação e nos manter presas presas em um looping de agressões e retaliações que só acaba levando a nossa saúde pelo ralo.

Defendo a ideia de poupar a pessoa agredida de novos sofrimentos. E uma das formas mais eficazes é sair da esfera de influência dos que a desrespeitam e evitar, tanto quanto possível, pensar no assunto.

Para isso, é necessário esquecer.

- Esquecer? Você só pode estar brincando!

Calma, não estou. E essa tampouco é recomendação ingênua. Eu indico o esquecimento voluntário. Fazer um exercício de esquecimento voluntário. Isso significa apenas não se permitir ser arrastada por antigas mágoas e ofensas. Significa abandonar voluntariamente os pensamentos, substituindo-os por outros mais agradáveis e produtivos.

Há uma forma bem eficaz de fazer isso. É só responder à pergunta: o que você poderia estar fazendo de bom com o seu tempo enquanto está remoendo antigos problemas? Todas as respostas que surgirem provavelmente serão melhores, mais úteis e agradáveis do que perpetuar antigos problemas e antigas mágoas. Remoer ofensas só é válido enquanto você tenta encontrar uma solução para se libertar de agressões sistemáticas. Depois disso é hora de deixar sair.

O perdão total significa o abandono de toda a dívida que o ofensor teria com você. É aquele momento em que você deixa de sonhar acordada, deixa de esperar alguma reparação por parte do outro. Você desiste definitivamente de retaliar, e dentro do seu coração libera o outro da necessidade de reparação. Esse é o mais difícil. Aliás, quem consegue isso normalmente é candidato à santidade (risos). No entanto, não é impossível. Só é trabalhoso.

Perdoar não quer dizer voltar às boas. Perdoar seria mais como deixar de evitar a presença do outro, deixar de dar-lhe qualquer importância. Não faz mais diferença onde a pessoa está, o que ela faz ou deixa de fazer. Nessa etapa, a mulher abandona qualquer pretensão de ser boazinha e educada com aquelas pessoas que a ferem. Ela não precisa ser falsa ou condescendente. Na dúvida se está nesse estágio, não se cobre muito: é melhor evitar o contato com o outro do que tentar agir com frieza.

Como você sabe que perdoou?

A lembrança das ofensas e dos sofrimentos já não lhe causam mais o sentimento de raiva.

É uma lembrança triste.

Você efetivamente perdoou quando consegue reorganizar suas lembranças nas gavetas dos seus sentimentos. Essas antigas lembranças serão retiradas da gaveta das raivas e guardadas na gaveta das tristezas.

Todos nós temos uma gaveta de tristezas em nossa alma. Não importa se ela está abarrotada. Às vezes, precisamos de várias gavetas ou de um armário inteiro para guardar nossas tristezas. Elas são os nossos bens imateriais.

Nós adoraríamos não ter gavetas de tristezas, mas não teríamos sabedoria e provavelmente estaríamos aniquiladas pela raiva. Mais importante do que ter um armário de tristezas é que consigamos respirar aliviadas e continuar um pouco mais leves a nossa trajetória para podermos abarrotar as gavetas das alegrias.

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#raiva #perdão #comportamento #esquecimento #paciência

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