Refém da Sedução


Sedução é diferente de envolvimento. É diferente de relação amorosa.

A sedução é o lugar de um protagonista e de um figurante. Um é sujeito, o outro é objeto. Um é amante, o outro é amado.

A relação amorosa é o lugar de dois protagonistas. É o espaço de dois sujeitos, de dois amantes.

Na sedução, prevalece a ilusão de que conhecemos o outro. Já em uma autêntica relação amorosa, percebemos a ilusão inicial, e adquirimos o conhecimento realista do outro. Amamos verdadeiramente porque conhecemos.

Na sedução, vive-se a ilusão de que é possível possuir o outro. É difícil suportar a ausência do ser amado porque ele parece nos escapar a todo o instante. Na relação amorosa, prevalece a consciência de que o ser amado jamais será nosso, de que podemos desfrutar da sua companhia enquanto ele nos amar. A aceitação madura da relação faz com que consigamos suportar a ausência da pessoa amada.

Uma relação amorosa autêntica pressupõe o conhecimento realista do outro. Quando estamos vivendo uma relação amorosa, conseguimos distinguir a pessoa do outro (quem ele realmente é) da projeção ilusória dos nossos próprios desejos. Conseguimos distinguir a realidade da imaginação.

A sedução acontece quando o objeto do desejo é indecifrável. O sedutor não fala abertamente, se expressa por subentendidos. Suas mensagens são ambíguas. Permite múltiplas interpretações. E somos nós que procuramos nos satisfazer com aquilo que conseguimos intuir.

O sedutor é aquele que não está envolvido, e que não se deixa conhecer completamente. É a pessoa seduzida que preenche as lacunas enigmáticas com as suas próprias ideias, emoções e valores.

O sedutor não é alguém de quem se saiba realmente alguma coisa. É apenas aquele propulsor que "aciona" o nosso mundo interior, e que parece corresponder aos nossos anseios e às nossas necessidades mais íntimas e profundas.

É claro que algumas pessoas seduzem intencionalmente. Os verdadeiros sedutores são aqueles que deixam inúmeras lacunas que nós tentamos preencher com a nossa própria imaginação. Sua principal estratégia é permitir que façamos uma infinidade de projeções sobre seus interesses e suas emoções, sem que elas sejam validadas ou invalidades. É quando nos sentimos no vácuo.

Permitindo que se faça projeções sobre ele, o sedutor traz todo o nosso universo interior e desconhecido à tona. Ele se torna assim um espelho onde vemos refletidas as imagens dos próprios anseios, temores, desejos e a possibilidade de realizá-los. O sedutor é um depositário de todos os nossos conteúdos inconscientes. Ao buscarmos conhecer o outro, encontramos muito pouco dele e muito (muito mesmo) do nosso próprio mundo.

O resultado da nossa busca do outro não é o outro em si, mas um potencial profundo de autoconhecimento. Quando seduzidas, captamos aspectos da nossa própria personalidade que até então desconhecíamos.

À medida que conhecemos o outro, percebemos o nosso engano. A ironia é que precisamos viver esse engano até as últimas consequências. Só assim tomamos conhecimento dos nossos próprios anseios. É através da ilusão que alguém conhece a própria alma.

Esse é um processo doloroso, carregado de sofrimento. É um "batismo de fogo" absolutamente necessário, uma iniciação a uma possibilidade mais madura e saudável de se relacionar.

Quando há reciprocidade de sentimentos, a dupla sedução pode se transformar, não sem ocorrerem conflitos e colisões, em uma relação amorosa.

Quando não há reciprocidade, quem está seduzida vive uma espécie de cárcere. Está sempre angustiada e procura se satisfazer com pouco, procura se convencer de que pouco é o suficiente.

A sedução é um arrebatamento violento. É um sequestro em que nos tornamos reféns (não do outro como podemos acreditar) de nossas próprias projeções. Somos sequestradas pelo mistério e pela ausência de significados.

Não é um processo passivo em que o outro nos "rouba" o espírito. É um processo ativo. Somos nós as artífices da nossa própria experiência. O sedutor acaba apenas depositando e refletindo os nossos anseios como uma imagem de um espelho. Somos nós que lhe atribuimos emoções que não são suas, temores que não são seus, valores que são apenas nossos. O sedutor apenas não se dá ao trabalho de recusar as nossas projeções.

Ser feita refém de uma sedução é uma etapa necessária à autonomia. O sedutor toca um ponto que nunca foi tocado: o nosso mundo interior desconhecido. E esse mundo vem a se tornar a parte mais importante de nossas vidas.

A frustração das nossas expectativas abre uma ferida narcísica necessária e imprescindível ao nosso próprio crescimento e amadurecimento.

A percepção de que não vivemos uma relação amorosa, de que fomos apenas seduzidas pelo outro é uma descoberta tão dolorosa que pode nos impelir à loucura.

A recusa em aceitar uma dor tão intensa pode manter a pessoa apaixonada em um delírio prolongado. Ela fica presa em uma espécie de looping, buscando na realidade quaisquer indícios desesperados de que não amou sozinha.

Aceitar a ilusão implica muita coragem para encarar o pior em si mesma: de que foi a nossa própria carência, mais do que qualquer afeto sutil e econômico que recebemos, o que nos colocou em apuros. Para enfrentarmos essa dura situação, talvez seja necessário um último e derradeiro confronto com a realidade.

É necessário reconhecer a sedução, reconhecer que se amou sozinha. É necessário reconhecer que existe entre a pessoa amada e nós um duelo invisível. Quem não ama, quem não está profundamente envolvido conosco, pode se utilizar deste tipo de comunicação incompleta, para controlar o nosso amor, deixando-nos confusas, impedindo que encontremos uma rota de fuga.

Quando está certo e seguro da sua conquista, o sedutor já não sente mais a necessidade de cortejar a sua presa. Os agrados e carinhos cessam. É quando a mulher apaixonada cai sobre os próprios pés. Nesse instante, ela tem a prova concreta de que foi refém de uma ilusão.

Existiu um duelo e existiu uma derrota. Perdeu quem esteve vulnerável. Ao invés de negar a perda, é preciso aprender a perder. A perda é um risco que enfrentam todas as pessoas que buscam vínculos profundos e ousam amar.

É necessária muita coragem para enfrentar esse momento, mas esse enfrentamento faz toda a diferença. A mulher que evita reconhecer a sedução, corre o risco de ser seduzida e frustrada novamente. E isso acontecerá inúmeras vezes até que ela consiga reconhecer e aceitar a situação.

Se ela foi refém de uma sedução, ela precisa pagar o resgate e libertar-se da prisão de uma "relação" que não lhe fornece o afeto de que necessita. Quando um sedutor alimenta nossas expectativas com migalhas de afeição para nos manter cativas dos seus caprichos, precisamos pagar o resgate e reunir uma boa dose de coragem para nos libertar.

Esse resgate pode ser uma declaração de amor direta. Pode ser uma declaração aberta de nossos planos, expectativas e intenções. Geralmente depois saber que a mulher está apaixonada, o sedutor deixa de cortejá-la e agradá-la. É uma descoberta terrível, mas libertadora.

O resgate talvez inclua abrir o coração e deixar transbordar todo o amor, todos os sonhos, todas as dores e todas as expectativas que mantivemos guardadas, sem nutrir qualquer esperança de que sejam correspondidas. Seria um "deixar sair" para conseguir seguir em frente.

É preciso reunir forças para esse enfrentamento. O sedutor "venceu o duelo". E ao vencedor, precisamos conceder o seu troféu de direito: talvez seja preciso dizer o "eu te amo" que ele deseja para podermos pôr fim (de uma vez por todas) ao seu jogo sádico de conquista. É preciso doar-lhe o amor. É preciso reconhecer a morte do sonho de uma relação amorosa com aquela pessoa.

A mulher apaixonada precisa assumir o seu amor e esperar pacientemente a tempestade passar. Precisa chorar o luto pelo tempo que for necessário. Ela deve ignorar os conselhos daqueles que dizem que não deve chorar por ninguém. Esses conselhos não trazem nada de bom ou de útil.

Se você está nessa situação, saiba que você não está chorando por ele. Você está chorando a perda dos seus sonhos, do seus planos, do amor que você precisou entregar. Você está chorando uma morte: morreu a possibilidade de ser correspondida por aquela pessoa tão especial.

No fundo do seu coração, você está chorando por si mesma. Você chora para que suas feridas possam cicatrizar.

Desperte! Você já derramou lágrimas por outras pessoas... por coisas e razões tão menos importantes do que um amor... Reflita: será que suas feridas não merecem ser pranteadas nem um pouquinho? Que conselhos absurdos são esses de você mesma não merece algumas lágrimas?

Recuse companhias de pessoas superficiais que acham que você precisa se mostrar estupidamente feliz para "esfregar sei-lá-o-quê" na cara do excelentíssimo "Sr. Fulano de Tal". Isso é viver em função dele, não de você. Isso é se manter na prisão.

Defenda (de quem precisar) o seu direito de cuidar de suas feridas. Rosne se for necessário. A primeira forma de amor próprio é o autocuidado: cuidar de si mesma, ouvir o seu coração, ouvir seu próprio corpo. Cuide de você e volte à ativa somente quando sua alma pedir e você se sentir fortalecida.

Não importa se o seu luto demorar mais do que você gostaria. Se demorar, paciência. Quanto maior a ferida, mais tempo leva para cicatrizar, você sabe disso. Não aceite pressões. Suas feridas merecem cuidadas. Fique ao lado de quem compreenda isso. Você sabe que às vezes precisamos de repouso. Procure coisas de que gosta. Invista em novos hobbies.

É importante tratar as feridas. É importante finalizar essa etapa até conseguir respirar aliviada novamente. Ese aprendizado concluído é preventivo: pode lhe conferir a sabedoria necessária para evitar passar por isso novamente no futuro. É a sabedoria de quem aprende a conhecer e a valorizar profundamente as suas próprias necessidades. A sabedoria de quem aprende a recusar qualquer pseudoafeto que não seja suficiente. Você vai saber quando estiver pronta: seus sorrisos vão desabrochar espontaneamente. Você volta a se sentir mais leve.

E você deve estar se perguntando: como fica o sedutor? O sedutor fica com o amor que você sentia por ele. Infelizmente, é assim.

Calma. O caçador fica com o troféu mas perde a caça. A vitória do sedutor também foi uma perda. Ele não tem mais sua presa à disposição dos seus caprichos. Amar não é aceitar o cárcere. Assumir seu sentimento de amor é primeiro passo para a sua libertação.

O sedutor se alimenta do poder da sedução sobre a sua presa, se alimenta de poder usá-la para satisfazer os seus caprichos, e não do amor que ela lhe ofertou como troféu.

Quem se alimenta apenas do poder da sedução, precisa estar em uma busca frenética e insaciável de novas conquistas para preencher um vazio que nem sabe que possui. E ficará assim por um bom tempo porque o poder é incapaz de preencher qualquer vazio.

Algum dia, muito tempo depois, é provável que por qualquer casualidade providencial do destino, você veja ou ouça falar do sujeito. E o que você descobre? Aff, o "grande sedutor" está na mesma vidinha. (risos)

É um momento mágico, surreal. Você revira os olhos, joga as mãos para cima, se olha no espelho com um sorriso rasgado e agradece: Meu Deus, olha a roubada de que eu me livrei!

É uma conquista, não?

Não seja egoísta: não prive o mundo de uma boa gargalhada!

Meu conselho: nesse dia mágico, saia correndo de casa e compre um presente para si mesma. Você merece!

Amar requer coragem para encarar os próprios demônios e as próprias fraquezas. Requer coragem para abandonar as ilusões e muita disposição de ânimo para encarar a realidade de frente e amadurecer. Você teve tudo isso.

Toda a experiência do amor também carrega consigo uma boa dose de sofrimento. Isso é tudo o que os sedutores evitam. Eles querem viver num perpétuo monocórdio que parte de lugar nenhum para chegar a lugar algum. Um dia, mais fortalecida, você percebe que eles são tão interessantes quanto um prendedor, tão enigmáticos quanto um balde.

Enfrentar a sedução e a frustração requer esforço. É necessário estar disposto a amadurecer para encarar essa experiência. Amar não é para aqueles que se recusam a crescer.

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