Mulheres que Sobrevivem de Migalhas


Muitas mulheres vivem em estado de miséria afetiva. Carecem de apoio, incentivo, reconhecimento, valorização e amor. Recebem tão pouco alimento para a alma que vivem famintas de afeto.

Estão esfaimadas e não tem consciência disso. Estão esfaimadas e tentam enganar a fome. Vivem iludidas. Parecem não saber que não há uma pessoa viva que consiga enganar a alma. Aquelas que passam a vida tentando recebem a visita precoce da morte.

A fome da alma usualmente surge quando essas mulheres ainda estão nas suas famílias de origem. E se perpetua em todas as escolhas amorosas até que ela aprenda a escolher as pessoas e os afetos que a sua alma pede.

Um dia essa mulher se dá conta de que é "cativa" de um relacionamento que não lhe faz bem. Essa consciência pode levar muitos meses ou muitos anos. E a mulher um dia percebe que leva uma vida medíocre repetindo diariamente para si mesma o mantra cruel e injusto de que "vida de mulher é assim mesmo".

Mulheres esfaimadas vivem uma vida muita aquém do seu merecimento. Mereciam viver plenamente, repletas de amor, aplaudidas por um coro de pessoas que as amam e que se orgulham delas. Elas são guerreiras e sobreviventes. No entanto, precisam despertar para a triste realidade de que sobreviver de migalhas ainda não é viver. Ser uma sobrevivente e carregar carregar cicatrizes dos "ferimentos de guerra" merece inúmeras medalhas e condecorações, mas a vida é mais do que isso. Não basta sobreviver, é preciso começar a viver.

Essas mulheres ainda não vivem plenamente. Seus sonhos, planos e desejos não são valorizados pelas pessoas que as cercam. E o que é ainda mais triste: acabam não sendo valorizados nem por elas mesmas. São mulheres cansadas. Normalmente, nós as vemos por quase todos os lugares que passamos. Podemos reconhecê-las facilmente: elas apresentam um olhar perdido, desanimado e lamentavelmente resignado.

Tenho vontade de sacudi-las para que acordem, da mesma forma que se pudesse, voltaria no tempo para sacudir a mim mesma há anos atrás.

Por falta de melhores opções, elas se conformaram uma vida pouco valorizada. Acostumaram-se a negar seus próprios desejos, instintos, planos, objetivos e sonhos em prol de uma vida morna porém socialmente aceitável. Levam muito tempo para perceber a violência que cometem diariamente contra si mesmas negando a si mesmas o alimento da alma. E quando descobrem acabam se deprimindo.

Elas se entorpecem ao perceber que nunca virá alguém lhes dar tapinhas nas costas e aplaudi-las pelos inúmeros sacrifícios que fizeram em prol de seus pais, mães, maridos, filhos, parentes e amigos. E é melhor que seja assim mesmo: tapinhas nas costas não matam a fome de ninguém. Elas precisam ouvir a voz interior e correr atrás daquilo que suas almas pedem.

Não podem esperar reconhecimento de suas famílias porque "não fizeram mais do que a sua obrigação". Elas ainda precisam suportar uma voz interior implacável. Uma voz que grita, ofende e protesta para que se mexam e façam algo por si mesmas, uma voz que pode ser cruel conosco quando fazemos demais pelos outros e nada (ou quase nada) por nós mesmas. É uma voz precisamos ouvir com urgência.

Chega um dia em que essas mulheres percebem que tentaram desperadamente (por quase uma vida inteira) engravatar e perfumar o sapo (que nunca foi príncipe), dizendo para si mesmas que nem foi uma escolha tão ruim, que há outras piores.

Todas nós já ouvimos falar sobre o lendário "dedo podre". Às vezes, nós mesmas tivemos um "dedo podre" na escolha de um ou mais parceiros. Contudo, pouco se fala que aprendemos a ter "dedo podre" nas nossas próprias famílias.

Nossos pais ou padrastos podem ter sido "sapos" nas vidas de nossas mães. Podemos ter mães infelizes e resignadas. Ou podemos ter estado tão tristes em nossas famílias que qualquer sapo sorridente parecia na época uma boa escolha.

Esquecemos de prestar atenção a um fato trágico e real: todos os dias, em inúmeros lares, existem famílias que empurram suas filhas lindas, ingênuas e cheias de vida para os braços de sapos escrotos e cavalos escoiceantes. Famílias que empurram jovens mulheres que precisam de sol e calor humano para viver sozinhas (ou com uma criança no colo) em um iglu com um homem das neves que está fisicamente presente e emocionalmente distante.

Essas mulheres se vêem diante de uma escolha terrível. Precisam optar entre o ruim e o menos pior.

A vida na sua família é ruim. A vida com o parceiro é menos pior. Com o passar do tempo, os valores se invertem. A vida com o parceiro se torna tão pior que elas acham uma boa escolha retornar às suas famílias onde sua vida era apenas ruim. Ficam desesperadas pelas más escolhas e não percebem que não tiveram escolha nenhuma. Escolher entre o ruim e o menos pior, que escolha é essa?

Nas suas famílias, elas não são acolhidas, nem mesmo recebidas de braços abertos. Costumam ouvir um sonoro "bem feito" por terem feito uma escolha errada. Essas famílias podem empurrar novamente suas filhas para o mesmo sapo ou para algum outro animal. Fazer uma escolha boa em uma situação desesperadora é tirar na loteria. Dificilmente alguma mulher consegue fazer uma escolha serena quando está desesperada.

Essas famílias já costumavam não valorizar as iniciativas instintivas da mulher, menosprezavam abertamente seus talentos, seus comportamentos, seus interesses seu modo de vida. Ela era vista como louca, futil, desajustada. Nesse momento, ela é tudo isso e ainda é divorciada.

Como filhas, namoradas e esposas essas mulheres são alvos das investidas alheias para que se conformem ao que os outros esperam delas. Expondo suas queixas, ouvem que são histéricas, que estão doentes, que precisam de alguma "pílula de felicidade". Essas mulheres pararam há muito tempo de rosnar, ranger os dentes e morder. São mulheres que estão legitimamente furiosas por dentro. No entanto, por fora, as vemos apáticas, com sorrisos amarelos, olhares mornos e apagados.

Um exemplo de mulheres que sobrevivem de migalhas são filhas de mães invejosas. Nós vivemos uma cultura que enaltece e absolve as mães de qualquer erro, inclusive as perversas de qualquer crime. Essa cultura nos coage a amar incondicionalmente nossas mães, mesmo quando elas são nossas maiores antagonistas. Temos "obrigação" de sentir gratidão infinita mesmo quando ela faz sistematicamente com que nos sintamos um "lixo". Adquirimos uma dívida pelo nascimento que, se não pagarmos, nos tornamos marcadamente "caloteiras". Levanto aqui uma questão importante: todas as vezes que uma filha precisou se sentir um lixo para que sua mãe se sentisse bem, será que essa filha já não pagou em dobro, com os juros exorbitantes do seu amor próprio essa dívida cruel de "amor e gratidão"? Talvez ela já tenha pago essa dívida inúmeras vezes, com inúmeros juros, e não saiba disso.

São mulheres que passam a vida sentindo que não são boas o suficiente. São mulheres confusas: recebem constantemente bombons de elogios recheados de críticas venenosas. Mães presas invejam a liberdade da filha, mães submissas invejam a autonomia de suas filhas. Nada é mais insuportável para uma mãe submissa do que uma filha autônoma. Nada mais insuportável para uma mãe conservadora e preconceituosa que uma filha livre e alegre. Elas vêem na filha a coragem que queriam possuir e não possuem. E por isso mesmo pisoteiam suas filhas para não se sentir mal consigo mesmas.

Essas mulheres sofrem tantos boicotes que acabam se casando com o primeiro que aparece, sem antes que tivessem desenvolvido seus instintos básicos de proteção. Poucos anos depois percebem a "roubada" em que se meteram. Elas se vêem encurraladas em um "beco sem saída".

Passam anos (às vezes, décadas) presas em relacionamentos insatisfatórios sem ter qualquer mínimo apoio à sua independência. Acabam se deprimindo, adquirindo uma série de doenças que, embora não sejam fatais, acabam prejudicando sua qualidade de vida, deixando-as incapacitadas para trabalhar por muito tempo.

Essas mulheres estão cada vez mais enredadas na teia triste de suas vidas esfaimadas. São mulheres em cativeiro. É um cativeiro invisível, mas real. Que mulher nunca ouviu falar de uma irmã que está se sentindo sufocada?

Para mulheres em cativeiro, toda a tentativa de fuga é válida. É bem-vinda e não deve ser julgada. Deve ser incentivada.

Ninguém tem o direito de condenar o comportamento de uma mulher em cativeiro. Ela tem o direito legítimo e o dever para consigo mesma de tentar tudo o que estiver ao seu alcance, todas as formas de se libertar, antes que sua luz se apague de uma vez por todas.

Essas mulheres são duplamente injustiçadas: vivem sem apoio significativo, e são desencorajadas a se libertar. Quando encontram algum suposto "apoio" normalmente ele vem em forma de perguntas capiciosas: por quê aguentaram tanto tempo sem fazer nada?

Todas essas pessoas estão apenas empurrando cada vez mais a mulher para dentro do seu cativeiro.

Quando essa mulher entra em depressão, ela assiste a um esdrúxulo embate: família e marido começam um duelo interminável para decidir de quem é a culpa. É um verdadeiro empurra-empurra. A ironia é: ninguém move um dedo para ajudá-la. Ela é uma corda puxada pelos dois lados. Ela precisa se desvencilhar antes que arrebente. É isso o que acontece quando a mulher está fragilizada e está no centro das disputas de poder: ela literalmente arrebenta.

Essa mulher precisa empreender uma fuga. Não é feio ou errado fugir. Não podemos lutar contra aqueles que são ou que estão mais fortes naquele momento. Fugir nesse caso é a opção mais inteligente. A mulher precisa resgatar a si mesma do seu cativeiro. Precisa botar o pé na estrada. Precisa se recompor e se fortalecer. Ir embora sem olhar para trás. Precisa ter esse ato de coragem para se salvar.

Ela precisa literalmente sair para procurar a sua turma: lugares e pessoas que a aceitem e a valorizem pelo que ela é. Precisa buscar abraços gratuitos e seu coro de aplausos. Precisa encontrar irmãs que assim como ela também carregam cicatrizes de combate.

Elas precisam saber que são sobreviventes. E precisam querer ser mais do que isso.

Toda a mulher que diz muitos "eu tenho de fazer isso", "eu devo fazer aquilo" é uma sobrevivente. Toda a mulher que precisa se esforçar demais apenas para sobreviver, não está vivendo. Para viver plenamente, ela precisa alcançar um equilibrio saudável entre o "devo fazer" e o "quero fazer". Por um tempo, após sair do cativeiro, ela precisa se permitir fazer o que quer. Precisa deixar de ser apenas uma sobrevivente, para começar a se sentir viva.

A mulher que se perdeu de si mesma precisa primeiro descobrir o que quer. Talvez ela nem lembre mais da última vez que usou os verbos "querer" e "desejar". Talvez ela nem lembre mais o que significa sonhar.

Para se descobrir novamente, ela precisa "agir como louca": falar sozinha, conversar consigo mesma, brigar com as paredes, socar o travesseiro, farejar o mundo, sentir o próprio cheiro, saltitar, dançar e correr sem motivo.

Precisa aplicar emplastro em suas feridas, achar sua própria beleza, ser uma boa mãe para suas fraquezas, colocar a si mesma para dormir no embalo de canções de ninar em sua própria voz. E nunca, NUNCA MESMO, parar de procurar a sua turma.

Ela vai saber que encontrou o seu lugar quando conseguir respirar aliviada e voltar a sorrir.

Ela vai saber que está no lugar certo, e com as pessoas certas, quando não importa a sua idade real, ela se sinta rejuvenescida. É isso o que a nossa turma faz por nós: nos revitaliza.

Estar em paz, fazer o que se gosta, viver de acordo com os anseios da própria alma não importa o julgamento dos outros, ser fiel a si mesma antes de a qualquer outra pessoa, estar com quem nos faz bem: essa é verdadeira fonte da juventude.

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