Carências Amaldiçoadas


Por quê razão somos tão cruéis com as carências afetivas e com os carentes? Por acaso as carências nascem de um capricho? É mais provável que surjam de um ferimento: um ferimento causado pela falta ou pela perda. Falta ou perda de cuidado, de amor, de carinho, de vínculos profundos, de algo que dá sentido à vida.

O carente é um enlutado e um injustiçado. Um viúvo do amor a quem negamos o direito às lágrimas, e cujo choro rotulamos e condenamos. Estufamos o peito para dizer: "Isso não é amor, é carência! E carência é capricho de um ego infantil e insaciável!"

Se existe um ego imaturo, existe uma alma faminta! Foi faminta, é faminta, e agoniza de fome sabe-se-lá há quanto tempo. Carência é dor. É vazio que sangra e transborda.

A carência merece compaixão. Acolhimento. Nutrição. Paciência desmedida e irrefletida para desviar das garras de um ego acoado e tratar dos ferimentos da alma. Precisa de alguém corajoso o suficiente para encarar a empreitada. E a medida da coragem necessária para isso é aquela que nos faz confundir o corajoso com um louco imprudente.

O carente precisa de uma persistente e infinita compaixão consigo mesmo. Precisa cobrir-se de cuidados e carinhos. Precisa ouvir a criança interior e ponderar as suas queixas. Precisa usar sua experiência adulta para discriminar as sementes, separar o joio do trigo, decidir quais queixas devem e quais não devem não ser satisfeitas. Não pode jamais negligenciá-la. Jamais deixar de ouvi-la. Suas queixas não são gratuitas. Suas dores não são em vão.

Costuma-se dizer dos carentes que não devem procurar um amor até que tenham sanado as suas carências, isto quer dizer até que estejam prontos para amar. Como se iludem aqueles que acham que algum dia estaremos prontos!

Recomendam esperar a hora certa, mas a hora certa não existe. É o amor aquilo que com uma fé inabalável e um notável poder alquímico nos apronta lenta e persistentemente. É o amor aquilo que transforma carências em cicatrizes, rígidas necessidades em flexíveis vulnerabilidades, carinhos em bálsamos, compaixão em tratamento, fluidez em cura.

É ao amor a que todos devemos a grande transformação a que estamos sujeitos nas nossas vidas (se permitirmos). É ele que apara as arestas e que confere um polimento fino à jóia bruta da alma.

Exigimos do carente o amor próprio como condição para o amor ao outro. Exigimos abundância onde impera a falta. Exigimos alimento do terreno não cultivado. Quantos são aqueles que investem tempo no preparo do solo infértil antes de lhe exigir a colheita de frutos doces e suculentos?

Poderíamos ser mais como arqueólogos que dispendem muito tempo em escavações cuidadosas, dispostos a sujar as mãos, pincelar os cacos e colocá-los em ordem pela possibilidade de descobrir e reconstruir importantes histórias que estiveram soterradas pelo tempo. E há grandes e emocionantes histórias com inúmeros capítulos por trás de cada carência.

Temos a percepção aguçada? Temos capacidade de nos despir de preconceitos para este novo mundo que aparece diante de nossos olhos? Somos compassivos com nossos cacos interiores e com os do outro?

Se desprezamos as nossas próprias carências (porque alguém disse que elas não tinham valor e não eram dignas de respeito), que respeito teremos com as carências alheias? Ou reprimimos a carência do outro porque tememos a nossa própria carência? Usualmente preferimos mostrar as garras e esconder nossas fraquezas. Se é verdade que ao nos expor estamos sujeitos a ataques insensíveis, também estamos sujeitos a garimpar a pedra preciosa que vai trazer mais brilho à nossa existência. Esconder nossas carências nos priva de solucioná-las.

Costumamos acreditar que ninguém vai ser capaz de aceitar as nossas carências porque consideramos que elas são defeitos. E seguimos a vida pensando assim até o dia em que encontramos alguém que vira nossas opiniões de cabeça para baixo, que nos surpreende porque ama esses "defeitos" indiscutivelmente, inclusive considera nossas carências como algumas de nossas maiores qualidades.

À criança carente dentro de nós deve ser dada a palavra, o direito às lágrimas, o luto pelo amor negligenciado ou perdido. Os carentes não são perversos egoístas, são feridos de guerra cujos ferimentos doem tanto a ponto de despertar a agressividade. A mesma agressividade de quem protege uma ferida exposta de qualquer um que queira tocá-la. E como existem pessoas que tocam feridas sem pretender tratá-las!

Antes de exigir-lhe amor próprio, ao carente deve ser ensinado o autocuidado dispendendo-lhe cuidados. Amor próprio é fruto, é resultado. Não é condição.

Não devemos cobrar-lhe o que não lhe foi ensinado. Fazer isso é sentenciar uma vítima. Ainda que tenha sido vítima da própria negligência, essa negligência foi aprendida. Quão triste foi o passado de alguém que hoje se negligencia? Em algum momento, talvez em toda a vida, aprendeu a rimar amor com omissão.

É crueldade impor a falta de amor a quem não foi amado. É torturar com a fome alguém que passa fome.

Por mais difícil que seja a tarefa, é preciso desviar das garras para curar a fera, manter distância segura sem se fazer ausente até que os temores sejam aplacados e as feridas possam ser tratadas. São doentes condenados por terem adoecido: "Você deve ter amor próprio, embora nem saiba o que eu digo."

Uma grande preguiça está por trás dos julgamentos cotidianos que alardeiam aos quatro ventos que os carentes são incapazes de amar verdadeiramente. Esses julgamentos demonstram uma grande má-vontade por parte de quem os repete, uma má vontade do tipo que é capaz de empurrar ao exílio do deserto emocional aqueles que estão sendo iniciados no amor antes que a iniciação esteja completa.

É proselitismo cruel repetir que os carentes devem se curar sozinhos para somente então serem dignos de amor. Repetimos à ufa essas obviedades quando temos preguiça de compartilhar experiências.

São conselhos de cima para baixo, onde marcamos nossa hierarquia. Ao invés de compartilhar nossas carências, esses conselhos as omitem. Com eles, estamos mostrando uma pretensa superioridade: "eu não sou carente, não preciso de nada ou de ninguém".

São apenas esmolas que não ajudam tanto o carente quanto nos fazem sentir recompensados pela agradável sensação de dever cumprido com o mínimo de esforço. Tão mais trabalhoso e menos gratificante ao ego seria ensinar a compaixão através de exemplos! Mas exemplos dão muito trabalho, não envaidecem o ego, não nos trazem fama. E nessa época das refeições pré-prontas, não queremos preparar o amor.

O tratamento da carência passa pela paixão de outra pessoa pelo ciclo da vida. Uma paixão incurável que lhe permita acreditar que as carências quando cicatrizadas se transformam em amores leais para toda a vida.

Muitos temem o poder e a força do amor de um carente. O carente sobreviveu à mediocridade dos afetos e é capaz de fazer milagres na abundância. O carente amado e compreendido com paciência e perseverança é um amante devoto para toda a vida.

Enquanto a maioria de nós quer um amor de microondas, um amor pré-pronto e instantâneo, tememos como paranoicos uma tão poderosa concorrência. O amor devoto de um carente ameaça a ordem estabelecida dos que querem amar de forma econômica.

E é em prol dessa suposta ordem das coisas que muitos de nós reproduzem, sem qualquer reflexão e questionamento, jargões que "os carentes não amam verdadeiramente".

Reconhecer a existência e a concorrência de um amor devoto exigiria de nós plenitude e entrega. Estamos dispostos a isso?

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#carência #carente #traumas #amor #relacionamento #devoção

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