A Maldade Santa das Moralidades


A areia sob o sol forte que queima meus pés reaviva a lembrança de uma antiga chama que me animava a vida, que me ardia a pele e me incendiava o corpo Era um fogo nascente, chama trêmula que impulsionava em perpétuo movimento Era uma energia que transbordava em riso e libido E acalentava meus sentimentos. Era tanto o alimento lhe faltou... Que rigoroso e prolongado inverno reduziu a antiga chama à brasas! O fogo interno sucumbia à fome de malícia, instinto e intuição Era insistentemente e intencionalmente abafado Por aqueles que não tinham coração Eu tinha em mim poderosas forças antagônicas E não dispunha de ferramentas de aferição Ou quaisquer armas para mantê-las equilibradas Havia em mim muita santa para pouca puta A santa que me habitava, poderosa porta voz da luz do dia A puta que me habitava, rainha cativa da luz da lua A primeira regulava os movimentos da vida A segunda lutava para ter direito à vida A santa que ali reinava, pérfida, estrangulava a puta Reinvindicava prioridade, matava por exclusividade Clamava para si todas as oferendas E as que não eram suas, ela roubava A puta que era cativa Em pouca vida reluzia em sorrisos No claustro em que era mantida ensaiava os primeiros passos Celebrava o raio de sol que surgia entre as frestas E nas poucas vezes que ensaiava fugas era coagida, apedrejada e compelida de volta para o seu cativeiro A santa austera mantinha cerrada vigilância para que nenhum sopro de vida escapasse ao seu controle Dispunha de armas e vontade de ferro para cercear todo o movimento selvático e impôr à natureza selvagem os suplícios do corpo. A puta cativa agradecia a existência Celebrava as poucas sobras das oferendas Que a santa desprezava e não consumia. Enquanto a santa repetia a si mesma e se convencia de que suas migalhas eram pura generosidade. No calar da noite, a mulher selvagem sofria em silêncio As dores de um corpo que não era nutrido Seus pedidos de socorro já não eram ouvidos O seu fogo se extinguia juntamente com a sua voz Já não cantava como chegou a cantar um dia Já lhe doía o rosto forçar sorrisos Já não recordava como era dançar a dança da vida A santa altiva com armas nas mãos Arrotava moralidades a olhos vistos Regoziva-se de expiar pecados que não eram seus, Que não eram de ninguém Pecados que precisava inventar. Carcereira que almejava ser salvadora Que não salvou uma única vida E deu vida longa à hipocrisia! Já tinha suprimido a própria alma com crueldade Cuidava agora de eliminar qualquer vivacidade Sabia ela que abafar o fogo da libido feminina Exterminava toda a sua criatividade A alma ferida da puta adormecia Poupando a fraca centelha da extinção Em tal gélido e infecundo ambiente A árida maldade golpeava brutalmente a morna sensualidade Lá fora o coro coletivo e indistinto Em nome da moral aplaudia A crueldade que culminaria em morte E em alta e forte voz bradava: "Apaga-lhe o fogo! Mata a pungente inimiga! Precisamos de bode expiatório para expiar os nossos pecados Precisamos descontar na puta selvagem a raiva reprimida por todas as putas cativas e torturadas dentro de nós. Afoga-lhe em piscina de gelo Extirpa-lhe a chama perigosa da sensualidade É crueldade conosco sua selvagem vitalidade que com a própria existência nos ofendia. Nós que levantamos brados à moralidade, Nós que fiscalizamos a íntima liberdade, Nós que censuramos a alheia privacidade, Gritamos em coro a nossa santidade! Nós que sacrificamos a plena existência pela aprovação superficial do coro, Nós que somos pouco mais que hipócritas insatisfeitas, Cantamos a vitória da moralidade, Enquanto torturamos a libido feminina em praça pública!" E foi assim que a santa, com o coro da moralidade, impôs suplícios à puta, à mulher selvagem Não conseguiu porém exterminar-lhe o fogo que ainda arde. É quando queimo os pés na areia escaldante, Que recordo a batalha entre as grandes forças E o quão se faz necessária a vigilância Que mantém aferida a balança. É na hora que meus pés ardem na areia, que mergulho fundo em prol de um salvamento. Tenho em mim forte propósito Destinar à moça selvagem as oferendas que lhe foram roubadas Para que possa crescer, viver e respirar livre Nutri-la até para que viceje forte, firme e bela Para que goze da vida que lhe foi negada Porque se há uma dura lição que aprendi na vida É que provém das santas as grandes maldades Que encontra no coro coletivo das moralidades Sede urgente de sangue de tudo o que é livre e selvagem Se existe medida justa a ser aplicada é hora de destinar apenas migalhas e deixar a santa morrendo de fome.

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