A Cegueira de Narciso


Algumas pessoas que me prejudicaram intencionalmente sempre esperaram alguma espécie de retaliação. Confesso que demorei a perceber que a retaliação é o que normalmente as pessoas esperam das outras, e que a minha forma de pensar e agir - ou não agir - é que era diferente.

Essas pessoas olhavam na minha direção e viam a própria imagem refletida. Nunca me enxergaram realmente. É o fenômeno que usualmente chamamos de projeção. Elas manifestavam uma convicção bizarra: a de que um dia eu finalmente teria 'coragem' de retaliar. Pela sua lógica, eu era covarde. E a minha vingança se tornava uma certeza projetada para o futuro. E ainda não tinha data marcada. Eu assistia perplexa a esse espetáculo semi- interativo tedioso e interminável.

A sua paranoia não era gratuita. Elas realmente tinham feito por merecer. Às vezes, eu sonhava em fatiá-las com dezenas de facadas. A desgraça é que sempre acordamos no meio de sonhos agradáveis.

Como eu disse, elas não fizeram pouca coisa. A minha não-retaliação era sinônimo de covardia. E o que é ainda mais irônico: estavam convictas de que quanto mais eu demorasse a agir, mais grave seria a minha retaliação. Certamente eu deveria estar alimentando um 'ódio reprimido' e isso 'provava' o quão era dissimulada a minha postura de 'adiar a grande retaliação'. Da minha parte, eu não estava entendendo muita coisa. Tinha perdido o bonde que ia para o 'Fio da Meada'.

Seja como for, eu estava demorando muito. Era lerda demais. E eles começaram a elaborar novas teorias. De repente, recebi uma grata surpresa. Sem que fizesse nada para merecer uma promoção, eu deixei de ser falsa. Agora, eu tinha me tornado apenas arrogante. Não sei se é bem uma promoção, acho até que é. Seja como for, agora eu não era mais dissimulada, eu não reagia apenas porque me julgava superior ao demais: me achava mais correta e movida por um senso ético notável e superior.

Não foi dessa vez que eu peguei o bonde. Não havia nenhum motivo moral ou religioso 'por trás' das minhas ações ou não-ações. Nem mesmo havia um 'por trás'. Na verdade, eu sempre achei que a coisa não era comigo. Explico: as acusações e agressões verbais nunca foram sobre o que eu dizia ou fazia, e sim sobre minhas supostas intenções e sobre o que eu ' certamente' faria no futuro.

Como podiam saber antecipadamente e com tanta certeza o que eu faria se eu nem mesmo sabia o que comeria no jantar? Por que esse povo não me dava os números da megassena se era tão bom em adivinhações?

Os boicotes, embora direcionados a mim, pareciam ser efeito colateral ou efeito dominó. Eu via aquilo de fora e achava esquisito. Parecia que não me diziam respeito, que nem mesmo se tratavam de mim.

Essas pessoas estavam projetando em mim suas próprias intenções, atitudes e comportamentos. Criavam um inimigo para combater e temiam represálias. E viviam angustiadas com isso. Usavam meu nome e destilavam uma raiva que, na maior parte das vezes, era uma raiva de si mesmas.

Como se fala para alguém que você não é espelho para refleti-la? Eu não sei.

Se há mal-entendidos, eles podem ser desfeitos. Eu confesso que tenho um modo meio simplório de ver as coisas: confio no método pergunta e resposta. Bastava que fizessem perguntas em vez de acusações e ouvissem as respostas.

A ironia é que nas poucas vezes que perguntas me foram feitas, minhas respostas foram desconsideradas. Eram tidas como mentirosas.

Eram pessoas capazes de brigar até as últimas consequências para terem a última palavra. Tinham certeza de que eu faria ou deveria fazer o mesmo. Na minha nada modesta opinião, defendo que deixar alguém ter a última palavra em algumas ocasiões é um opção mais inteligente e menos desgastante do que travar disputas intermináveis com quem não ouve ou não acredita em nada do que você diz. Há uma impossibilidade técnica aqui.

Ah, uma coisa sobre mim: sempre fui o centro das atenções. E isso não é tão divertido quanto parece. Não fui mimada, paparicada ou protegida, nem mesmo orientada. Era um outro tipo de centro. Eu era causa das brigas alheias, da crise econômica, da poluição na China. Eu era a 'verdadeira causa' do câncer que vitimou meu pai. O vício do cigarro por mais de trinta anos não teve nada a ver com isso.

É claro que essa posição me deixou sequelas: houve momentos eu me atormentei com a culpa pela chuva que atrapalhou as férias de uma colega. E por algum tempo, anos depois, eu podia jurar que o Ayrton Senna morreu porque eu assistia a corrida. Não que eu 'desejasse' essas coisas... Fiquei muito animada quando perceberam isso. E justiça seja feita, elas chegaram a absolver e perdoar as minhas maldades: afinal eu era tão má que, mas tão má, que mesmo quando eu 'tentava' ser boa, o mal me acompanhava na forma de uma má intenção inconsciente, ou na forma de encosto.

Inlcusive, uma vez me levaram a um lugar onde um cara tentou tirar o mal de dentro de mim: fiquei espantada ao ver que o mal se parecia com miúdos de frango. Não deu muito resultado: a roseira da vizinha acabou morrendo por falta de água. Essas pessoas falsificavam a realidade e estavam convictas de que eu fazia o mesmo. Portanto, o que eu respondia só poderia ser mentira, fingimento ou atuação. Eu fingia ser outra que não eu mesma.

Elas viviam de certezas. Viviam tão fielmente suas crenças que não se importavam quando provas contrárias explodiam em seus colos. Quando as pessoas acreditam no que querem, não há nada que se possa fazer quanto a isso. Não é possível objetar nada quando se fala de crenças. Crenças dispensam provas. Nenhuma prova tem poder de contestar uma convicção.

Para quem vê segundas intenções em tudo, uma atitude honesta é 'prova concreta e irrefutável' de que você esconde algo, de que possui alguma estratégia sórdida e planeja fazer algo terrível no futuro. Fazer algo certo 'prova' o quão dissimulada uma pessoa é.

Bizarrices da vida: se você opta pelo mau previsível, você dá provas de que é honesto e bom; se opta pelo bem previsível, prova que é desonesto e pérfido. Fazer o bem é prova de que se é mau. Na verdade, eu nem queria fazer bem nenhum, às vezes eu só não queria fazer nada. Até isso virava uma confusão. Se você se perdeu no meio disso tudo, não se preocupe: é confuso mesmo.

O mundo dessas pessoas é complicado demais para o ângulo da minha testa. E eu sou bem mais simples do que isso. E por isso mesmo, pareço tão complicada. Obviedades nada à parte: quando elogio uma ação, é porque eu gostei. Não é dissimulação de segundas intenções ou trama de algum plano maquiavélico para iludir ou me aproveitar de alguém. Planos elaborados requerem investimento de muito tempo e energia. Trocando em miúdos: cansam muito.

Eu tenho uma teoria: talvez eu acreditasse mais nas pessoas do que elas em si mesmas. Eu acho que eu apenas não subestimo as pessoas tanto quanto elas me subestimam. Eu não as considero idiotas o suficiente para se deixarem iludir com coisas tão bestas.

Para enrolar alguém com bobagens eu precisaria primeiro acreditar que a pessoa é totalmente desprovida de senso crítico. Nesse caso, quem é subestimada sou eu: pensam que eu sou desprovida de senso crítico para usar de estratagemas infantis.

Talvez isso até tenha algum fundo de verdade: talvez eu seja mesmo idiota por não achá-los tão idiotas, mas aqui já estamos andando em círculos. É um trabalho desnecessário, porque eu nem me questiono muito sobre essas coisas.

A minha não-ação em algumas situações, que normalmente é vista como passividade, não tem nada a ver com medo, covardia, falsidade ou arrogância. Também não é motivada por qualquer preceito filosófico, moral ou religioso.

Por quê raios eu vou responder se eu nem mesmo acho que estejam falando comigo? Usam meu nome, é verdade, mas me parece puro acaso. O meu nome é atribuído a um personagem fictício que só existem em suas cabeças. Se eu respondesse, eu acabaria dando vida aos seus delírios, e aí seria eu que acabaria me perdendo nesse jogo de sombras, como já me perdi em outras épocas.

Não sou ingênua. Sei que as pessoas podem ser más. A propósito, na minha vida, em primeiro lugar, conheci a maldade. Eu era bem criança e já sabia que qualquer pode ser bom ou mal dependendo de suas escolhas.

A grande questão é que as pessoas não me enxergavam mas eu as enxergava. Eu percebia que estavam angustiadas, que brigavam com fantasmas, temiam a própria sombra e combatiam a si mesmas.

E eu não sou nenhuma candidata à santa, nem estou postulando uma vaga no céu. Eu até que achava bem divertido assistir aquele pastiche de gosto duvidoso. Eu não ia tentar desfazer os nós que não criei, nem dirimir dúvidas de quem se ocupava em me ferrar.

Se eu me preocupasse em retaliar cada picuinha que começasse a tomar grandes proporções eu não conseguiria fazer mais nada na vida. É claro que existe uma dificuldade básica em combater ataques dessas pessoas: elas se ocupavam demais comigo. E eu também: meu foco sempre foi a minha própria rotina e as minhas atividades.

Pra ser sincera: acho esse negócio de retaliação uma tremenda perda de tempo. Nem consigo achar divertido. Pelo contrário, nessas horas eu só penso que seria mais legal arrumar as unhas, lavar as roupas, olhar as nuvens ou coçar a periquita. Talvez seja isso o que elas consideram arrogante: eu achar um tédio o seu passatempo. Por acaso precisamos gostar das mesmas coisas?

Os seus conflitos eram contra seus próprios fantasmas, não comigo. Para ser comigo, precisariam minimimamente me compreender para falar qualquer coisa que não fosse uma tremenda bobagem. Precisariam me enxergar para fazer alguma acusação minimamente plausível.

Um mínimo já seria suficiente. Mas eles não me enxergavam. É como eu sempre digo: narciso não apenas acha feio aquilo que não é espelho. Narciso é incapaz de enxergar qualquer coisa que não seja a própria imagem. É uma cegueira incurável.

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#malentendido #boicote #discussões #narcisismo #relacionamento

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