O Grande Mal-Entendido


O casamento é uma coroação. Não há sentido coroar reis e rainhas se não há um território para o seu reinado. Uma grande parte das pessoas nem mesmo sabe qual é o território no qual pretendem reinar. Acabam destruindo a relação por um terrível mal-entendido. Acabam assassinando o amor por uma indiscutível ignorância e uma admirável arrogância.

Consideram-se os únicos reis ou rainhas. E o que é pior: acham que o outro é o território conquistado sobre o qual pretendem reinar. Querem reinar sobre a vida do parceiro, sobre seus comportamentos, sobre suas emoções e seus pensamentos. São verdadeiros tiranos demagogos: falam em parceria, liberdade e respeito, enquanto praticam uma tirania criminosa e solitária.

Como se não bastasse, são cegos às próprias atitudes: realmente acreditam que isso é amor e que essa é a única forma de amar.

Não percebem o erro crasso de interpretação: acreditam piamente que o parceiro é um território explorável à exaustão pelo rei ou rainha vigentes. Acham que o outro, como um território ocupado, deve ter muitas riquezas naturais e muitos recursos para serem explorados.

Não admitem imperfeições no terreno, vivem tentando mudar o outro. Querem aplainar aqui e ali, aterrar acolá, construir um parque para os dias de descanso, quiçá até construir um resort de férias. O outro deve ser um spa aberto 24 horas para lhes satisfazer. Esperam ingenuamente saciar os seus caprichos e exercer a sua vaidade pessoal. Na raiz de seus males está uma incurável tolice. Não entenderam bolhufas sobre o amor.

No amor, não existe um território à espera de ser invadido, ocupado e delimitado. Não existe uma terra sem lei repleta de tesouros, esperando para ser descoberta e saqueada. Quem pensa assim, pensa como um explorador: "o que eu enxergar é meu, não importa a quem eu tenha de roubar". E roubam mesmo impiedosamente: o respeito na relação, a autoestima do outro, a sua liberdade, a sua individualidade e o seu direito à privacidade.

Aqueles que optam pela diplomacia no seu reinado solitário usam a retórica sórdida, o desrespeito sutil e a chantagem emocional para exercer o seu domínio. Aqueles que optam pela guerra, não hesitam em utilizar boicotes diretos, gritos, ameaças, agressões verbais e físicas.

Mais do que um mal entendido, é um crime: um amor criminoso. Homens e mulheres se tornam criminosos a partir de um mal entendido original. Entenderam tudo errado e são capazes de fazer qualquer coisa para provar que estão certos. Mais do que reis, são saqueadores. Mais do que amantes, são criminosos. Mais do que tolos, são arrogantes.

O amor em si é que é o território de um duplo reinado. O espaço da relação amorosa é que é local onde reinam dois protagonistas: um rei e uma rainha, dois reis ou duas rainhas (a configuração do reinado realmente não importa).

Não é um território pronto à espera de um pioneiro conquistador. É um espaço que precisa ser construído a dois. O espaço da relação amorosa é o terreno que precisa ser trabalhado com muita disposição e dedicação até se tornar fértil. Seus regentes são reis e rainhas originalmente pobres que vão construindo suas riquezas juntos. Acumulam tesouros sob a forma de gentilezas, cuidados, aceitação, interação e principalmente amor.

Alguns chegam na relação de mãos vazias, dispostos a guerrear, a destruir o território, a subjugar quem estiver ali com o objetivo principal de coletar os espólios de guerra.

Ninguém chega rico em uma relação amorosa a ponto de não precisar construir nada. Aliás, os que chegam pretensamente ricos, não estão nem um pouco dispostos a construir relação alguma e não tem qualquer disposição a se deixar tocar pelo amor. São os turistas amorosos: aparecem para curtir as férias, e sem disposição para amar. O importante para eles é fazer as coisas do seu jeito.

A relação amorosa construída a dois é o local de um duplo reinado. É o teatro onde atuarão dois protagonistas. Quem tentar brilhar mais ofusca o outro. Quem tentar reinar sozinho, reina provisoriamente sobre o outro, e por fim, acaba perdendo o verdadeiro domínio: o território da relação amorosa. E acaba perdendo por pura estupidez todas as riquezas que conquistou. Reinará sozinho em um território devastado e infértil: o próprio vazio interior.

Há quem viva esperando pela cerimônia de coroação sem sequer ter construído seu território de atuação. Há quem esteja ansioso para exibir a coroa sem ter conquistado as riquezas.

São reis e rainhas famintos e miseráveis exibindo suas coroas, ostentanto o poder de um reinado que só existe em suas fantasias medíocres e infantis.

São crônicas ambulantes de uma tragédia anunciada que somente eles não conseguiram prever: acabarão todos na miséria do amor com os corações dilacerados. Foram incapazes de compreender que o outro não é nem nunca será território conquistado e garantido.

Se conseguirem vencer o mal entendido original, perceberão que precisam de muita disposição e dedicação para tornar fértil e habitável o território da relação amorosa.

Se conseguirem desfazer o mal entendido, se sentirão gratificados por todos os seus esforços ao se darem conta de que o maior tesouro que qualquer um pode alcançar na vida é o privilégio de reinar a dois.

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