Devolva-me os meus pecados


A jovem mulher de olhos apagados via os dias se arrastarem um a um. Tinha presos em seu corpo jovem A compreensão de um velho sábio E o coração de criança que ainda não sabia falar. Ela sobreviveu em descompasso em um tempo próprio fora do tempo Queria viver o presente. E sentir-se presente mas o presente era insuportável.

Ela arrastava seu corpo pesado pelos mesmos velhos caminhos. Tentava voar em direção ao futuro com os pés acorrentados no passado. Levava nos lábios o sorriso, Nos olhos, a morte. No coração, alguém que não quis o seu. E sem um tempo, um lugar, e um amor que pudesse chamar de seu tentou libertar sua alma de si.

Mas quiseram as fiandeiras que o fio não fosse cortado. Abriu os olhos e viu que ainda estava ali Suspirou resignada o fracasso de seu último ato de coragem. Abraçou com força o travesseiro O único que sempre estivera ao seu lado.

Boneca sem vida, já não sonhava outra vida Sentia apenas ressaca do excesso de vida. Seus dias não tinham começo nem fim. De repente, eles vieram e lhe disseram que era chegado o crepúsculo de outra vida. Outro fogo se apagava lentamente diante dos olhos de todos sem que ninguém percebesse. A linha da vida daquele homem estava chegando ao fim Ele que esteve na origem de tudo Onde a linha do início encontrava a ponta do fim. E eles retornaram onde tudo começou Tinham poucos dias para fechar as contas de uma vida inteira Não havia tempo qualquer tempo que fosse o bastante

Foi quando o homem lhe disse: "Os seus olhos, eles dizem tudo Eu sabia que seria você a me dizer enquanto todos estão lá fora com pena de si mesmos. Você sabe do que tudo isso se trata." Foi quando o homem lhe disse "Menina, essas contas não são suas Eu não fiz a minha parte Esses são os meus pecados Essas faltas não são suas Devolva-me os meus pecados" A jovem mulher nada tinha a dizer. Deveria estar triste, mas todas as lágrimas haviam secado. E seu coração, onde estava? Ela não sabia por onde andava. Ao seu redor, o mais genuíno absurdo: Um pastiche que há muito perdeu a graça. O homem cansado não temia o fim Parecia até mesmo gostar da ideia Ela conhecia bem aquele sentimento Eram cúmplices no fracasso e no cansaço Ele lhe fez um último pedido, Não tendo direito de lhe pedir nada, disse: "Levo as pedras comigo, Solte esse o peso, Esses pecados são meus, não são seus, Essas são as minhas faltas Devolva-me os meus pecados. Segue a sua jornada até onde for possível Agora saia daqui, vai lá para fora respirar vida Você vai respirar melhor daqui para frente." Ela saiu de lá E a noite pedia passagem E enquanto a chama enfraquecia Ele tomou o telefone para reiterar o pedido "Prometa que não vamos nos ver tão cedo. Para onde eu vou, não lhe quero ver tão cedo." A chama fraca por fim se apagou Ali na sua frente, o homem estava restituído à poeira original - a insignificância primordial que nos liga a todos. Silenciou a voz, calou as palavras, nada mais precisava ser dito. A jovem mulher não tinha nada a lamentar todas as suas lágrimas haviam secado Não havia tristeza ou saudade Apenas um estranho alívio que ele já havia previsto. E ninguém precisava saber. Ela guardou esse segredo consigo Não podia mentir a saudade Nem revelar seu alívio Tampouco pedir ajuda Que direito ele tinha de sequestrar-lhe o fim? Manteria a promessa enquanto fosse possível... Havia pendências Porquês sem qualquer razão Mas não há balanço na vida Apenas discursos inacabados Esse é o sentido do jogo E então, não há mais contas ou credores A noite enfim havia chegado No fim, restaram apenas palavras: "Essas pedras são minhas, não suas Restitua a mim meus pecados Odeie se necessário Tira a morte de dentro de si e continua... ... até onde puder, continua." Ele tinha razão numa coisa: ela agora estava mais leve. Olhando a vida ao redor, respirava aliviada. Esse é o segredo que levam consigo Os únicos que podiam compreender Ela manteve a promessa "Até onde eu puder, continua." E até hoje continua...

#morte #vida #pai #acertodecontas #suicídio

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