999 Vezes Já é Suficiente


Não existe amor inútil. Nem mesmo aquele arrebatamento apaixonado que não encontra eco na pessoa amada pode ser chamado de inútil. Nem mesmo quando não há reciprocidade. Nem mesmo quando há descompasso emocional. Nem mesmo quando se ama mais do que se é amado. Nem mesmo quando se experimenta a mais dolorosa das rejeições.

As experiências amorosas, especialmente aquelas marcadas por grandes colisões, possuem a importante função de levar até as últimas consequências e esgotar as nossas estruturas psíquicas e emocionais mais rígidas e enraizadas que já não são saudáveis e não nos fazem bem.

O amor é o único sentimento capaz de produzir grandes e significativos impactos na nossa vida: quando estamos amando, ao mesmo tempo em que experimentamos uma força indescritível que nos faz sentir praticamente invulneráveis diante do mundo, sentimos que essa fonte de força vital somente pode ser despertada em nós por uma pessoa específica. E não é de se surpreender que depositando todas as nossas carências, expectativas de felicidade, e toda a nossa força em outro alguém, isso possa nos causar uma insegurança generalizada e sentimentos de absoluto terror. É o terror sentido quando pensamos na possibilidade de rejeição e abandono. No entanto, a rejeição é uma experiência inevitável para a maioria de nós, pelo menos em algum momento de nossas vidas, pelo menos para a maioria dos que realmente já se sentiram vivos.

O arrebatamento amoroso acarreta alterações importantes na nossa percepção da relidade, como se todos os acontecimentos do mundo dissessem respeito direta ou metaforicamente à realidade das duas pessoas envolvidas. O amor tem o poder de desvelar o mundo, dar o mundo ao nosso conhecimento.

O amor também faz baixar as nossas vigilâncias. A mesma força que experimentamos como um novo sopro de energia, vivacidade e criatividade também traz à tona os elementos mais escondidos e desconhecidos, que estão enraizados bem no fundo da nossa psique. Podemos dizer que o amor desempenha a função de espelho: enquanto partimos nessa viagem rumo ao desconhecido, buscando conhecer o outro, procurando desvendar os mistérios daquele ser que tanto desejamos, acabamos por ver refletida a nossa própria imagem. A experiência amorosa torna-se assim um verdadeiro trabalho psicológico no qual o amante conhece sobretudo a si mesmo.

Quando duas pessoas estão envolvidas em uma relação amorosa, deixam vir à tona seus conteúdos inconscientes mais profundos: os aspectos "sombra" de sua psique. Esses aspectos "sombra" são assim chamados porque são conteúdos desconhecidos, esquecidos e ignorados pela própria pessoa, composto por neuras, traumas, emoções e experiências consideradas vergonhosas, e que por isso mesmo foram muito bem guardadas e escondidas dos olhares alheios nos sótãos e porões da nossa mente.

A manifestação desses conteúdos inconscientes propiciada pela relação amorosa cresce à medida que cresce a intimidade, e traz alterações importantes para a forma de se relacionar com o outro. Essa mudança é sentida pelos parceiros como uma mudança de atitude, comumente traduzida nas nossas conversas diárias como "fulano(a) mudou: já não é mais a mesma pessoa", ou "fulano(a) está mostrando sua verdadeira face". Não se trata de ter sido enganado, embora muitas pessoas acreditem nisso. Na maior parte dos casos não há qualquer mentira, engodo ou má-fé. Aqueles aspectos desconhecidos do outro que vieram à tona na relação amorosa só puderam emergir em decorrência da própria interação amorosa. Eram aspectos de sua psicologia desconhecidos dele mesmo.

Na relação amorosa, há um duplo processo de conhecimento. Conhecendo o outro, eu conheço profundamente a mim mesma, e conhecendo a mim mesma, eu posso conhecer mais profundamente o outro.

Devido ao aparecimento desses conteúdos sombra, tendemos a nos sentir extremamente vulneráveis ao ser amado. O parceiro assim como vê o que há de melhor em nós, agora também pode ver o que há de pior. E é aqui que entra o temor da rejeição, que adquire contornos assustadores podendo provocar grande insegurança.

Sentimo-nos diante do outro como se estivéssemos nus. E lidar com a nudez emocional e psicológica é incomparavelmente mais difícil para nós do que com a nudez corporal. O ser amado, cuja opiniões importam demais para nós (mais do que a de qualquer outra pessoa), passa a conhecer aqueles recantos obscuros da nossa psique, e a ter acesso a todas as nossas fraquezas, fragilidades e vulnerabilidades. Se, por ventura, tivemos na nossa história de vida, experiências traumáticas em que nossas fragilidades foram espezinhadas ou utilizadas como arma contra nós, a experiência da nudez emocional pode causar verdadeiro e legítimo pânico. É o receio de ser rejeitado, de ser atingido em suas fraquezas e vulnerabilidades, e de tê-las expostas a outras pessoas.

Agora a pessoa está realmente nua. Pode ser vista, avaliada e rejeitada. Pode ser atingida em suas feridas mais doloridas, ter apertados os botões que acionam os "gatilhos" de suas neuroses. Padece com um sentimento de angústia difícil de ser compreendido, assimilado e posto em palavras. E essa angústia constante pode acabar tomando grandes proporções com o medo da rejeição e do abandono. Como aceitar a possibilidade de abandono por parte daquela pessoa tão única e especial, aquela pessoa que corresponde a todos os nossos desejos conscientes e inconscientes, que traz cores vivas ao nosso mundo interior, que traz novos matizes a todas as esferas da nossa vida?

Ao permitir que sejam conhecidos, ainda que lentamente, nossos conteúdos interiores mais secretos, o ser amado pode sinalizar - nem tão sutilmente - sua rejeição à nossa sombra. E justamente porque esses mesmos aspectos nos são igualmente desconhecidos, podemos acabar caindo na armadilha de tentar ocultá-los. Em alguns casos, o arrebatamento amoroso é tão intenso que simplesmente não conseguimos interpretar esses pequenos sinais de rejeição. E quanto mais expostos estivermos diante dessa pessoa, mais dolorosamente sentiremos sua rejeição.

Há um claro perigo nestas situações: sofrendo com a rejeição de uma pessoa tão especial para nós, estamos sujeitos igualmente a rejeitar esses mesmos aspectos da nossa vida. Assim passamos a nos identificar apenas com nossos conteúdos sombra, e nesse caso, a rejeição do outro se mistura com a nossa e cresce: sentimos agora aversão a nós mesmos. Essa é a maior de todas as crises que pode se instalar no âmago da psique de quem ama.

Essa profunda crise ocasiona uma verdadeira cisão na psique, uma grande desagregação da personalidade. É um sentimento de devastação psicológica! É um sentimento absolutamente terrível, inexplicável. Dificil de ser até mesmo lembrado sem sucumbir às lágrimas! E uma vez instalada a crise, a pessoa tem a nítida sensação de implodir. Perde absolutamente todas as referências. Pode se sentir como se estivesse morta para o mundo e para si mesma.

Quando nos identificamos apenas com aqueles conteúdos que nos fizeram experimentar a rejeição, acabamos ficando cegos às nossas qualidades, incapazes de ver a nossa própria luz e de desenvolver nossas potencialidades. Nesse caso, é mais do que necessário um trabalho terapêutico capaz de reconduzir a pessoa desagregada a uma reintegração de si mesma, reconhecendo seus aspectos luz, aceitando seus aspectos sombra, reconhecendo-se a si mesma como uma totalidade, como alguém que merece ser amada, aceita e valorizada pelo que é, e não de acordo com as expectativas de outra pessoa. A pessoa em crise precisa de ajuda para sentir-se inteira novamente, e recuperar o seu equilíbrio.

Contudo, mesmo essa devastação psicológica, por mais dolorosa que seja, traz um aspecto inegavelmente positivo: ela tem o poder de esgotar um modelo psicológico defasado, que não faz nenhum bem, e que já não possui nenhuma utilidade para a vida da pessoa que sofre.

É um processo indiscutivelmente doloroso que pode levar meses e às vezes anos para ser concluído: quando a pessoa estará finalmente reintegrada, reconstruída, reorganizada. Sejamos realistas: é realmente muito difícil, quando estamos no meio desse processo, conceber qualquer aspecto positivo. Nada parece explicar minimamente tanta dor. Não raro, sentimos que é um sofrimento totalmente desprovido de sentido, totalmente gratuito, e praticamente insuperável. O pessimismo que toma conta da pessoa decorrente de um sofrimento muito intenso e prolongado não é algo que possa ser ignorado. Chega um ponto em que ela realmente se vê incapaz de sair desse "poço sem fundo", parece que nunca mais vai parar de cair. Nem dormir resolve. Ela não descansa. Basta fechar os olhos para prolongar as angústias em uma série interminável de pesadelos e sobressaltos. É torturante.

No entanto, por mais absurdo que pareça, esse aspecto positivo existe: quando conseguimos finalmente aceitar nossa sombra estamos prontas para dizer "não, obrigada" a uma possibilidade ou a alguém que, mesmo sendo muito atraente, não seja capaz de fornecer as trocas afetivas das quais necessitamos. Não se trata aqui de alguém que corresponda a um modelo preconcebido de relação ou compromisso. Nem mesmo estou falando de preferir um a outro modelo de relação amorosa: um namoro, um casamento, um caso ou uma amizade colorida.. Não há fórmulas prontas: cada um sabe aquilo que pode ou não administrar.

Podemos dizer "não, obrigada" a alguém não nos aceita inteiramente como somos, que rejeita algum aspecto de nós, ou que não está na mesma sintonia emocional. Podemos dizer "não, obrigada" a uma relação onde não há trocas afetivas profundas, trocas estas que são vitais (vitais mesmo: essenciais à vida). Não se trata ainda nem mesmo de definir se o casal é do tipo que está sempre junto ou se é do tipo que vive bem em casas separadas, ou se adapta a viagens constantes ou a passa tempo separado em decorrência de trabalho, etc.

O que é relevante nesse caso é a qualidade do tempo que desfrutam juntos, o quanto a relação amorosa é desejada e significativa, o quanto se entregam um ao outro, o quanto se permitem se sensibilizar, se envolver e se transformar um pelo outro. Somente as trocas afetivas profundas, o compartilhamento de emoções e neuras, a aceitação e o acolhimento são capazes de satisfazer profundamente alguém que já tenha vivenciado a dolorosa experiência de uma rejeição.

Nenhum relacionamento superficial vai suprir esse vazio. O investimento em trocas afetivas superficiais e sexo casual pode até trazer algum conforto passageiro, mas deve-se ter em mente que é algo provisório que deve servir apenas de catapulta para algo mais significativo. Nos momentos mais difíceis, serve como muletas para nos ajudar a caminhar, mas investir nessa fase por muito tempo cobra o alto custo de prolongar ainda mais o vazio e o sofrimento.

A melhor opção é não desistir de procurar vínculos mais profundos, pensar em si mesma e nas suas próprios emoções como sagradas, sagradas não porque sejam divinas, sagradas porque são essenciais à sua própria vida. Essa sacralidade é que deve ser cultivada. E nesse sentido, mesmo uma relação que tenha culminado numa rejeição dolorosa, deve ser respeitada como sagrada. Foi muito importante para você, mesmo que tenha terminado muito mal. Assim ela foi realmente sagrada porque teve a capacidade de acionar muitas novas emoções sagradas para você.

Para quem está profundamente envolvido, a troca afetiva superficial pode ser devastadora. Contudo, mesmo que seja um sofrimento muito longo, mesmo que seja enorme o número de pequenas ou grandes rejeições que a pessoa precise enfrentar, o mais importante é que esse processo realmente culmine na emancipação daquela que sofre.

Trata-se de encontrar uma saída criativa: criar uma perspectiva mais madura e realista de uma relação amorosa, colocar na ordem do dia se a relação faz ou não faz bem para si mesma. Nessa perspectiva, precisamos compreender que a rejeição de alguém que amamos é uma ferida que nunca fecha completamente. Só poderia ser fechada pela aceitação e acolhimento daquela pessoa especial que nos rejeitou. No entanto, não podemos contar com isso. É algo doloroso de aceitar, mas devemos ter em mente que não aceitar dói muito mais e por muito mais tempo. Às vezes, simplesmente não há nada que possamos fazer.

No entanto, podemos aprender a tratar a ferida com o cuidado que ela merece e conviver com ela pelo tempo que for necessário. Em alguns momentos, conviveremos tão bem que mal nos lembraremos dela. Em outros momentos, ela pode voltar a doer forte. Mas ela está lá, e já faz parte da nossa bagagem, está guardada junto com tantas outras coisas no nosso acervo de sombras. Ela ajudará a fundar uma nova estrutura psíquica dentro da qual viveremos daqui por diante. Não podemos simplesmente fechar os olhos e fingir que nada aconteceu. Embora muitas pessoas tentem isso, é um paliativo que não resolve nada. Só prolonga o problema. Não é possível esquecer. Aliás, não devemos nem tentar. Seria estupidez, seria desrespeitar o nosso próprio sofrimento. Quem fecha os olhos para a ferida, continua presa ao modelo antigo, continua desrespeitando a si mesma, e provavelmente acabará por repetir as experiências de rejeição até conseguir digeri-la ou até sucumbir à amargura e ser derrotada pelo pessimismo.

Ninguém consegue ignorar uma implosão, da mesma forma como não se pode ignorar que algo totalmente novo nasceu daquela destruição. A ferida já está lá, guardada no acervo de nossas experiências: ela ajudará a fundar e moldar nossa nova forma psíquica.

A grande herança positiva desse processo extremamente doloroso é a transformação daquela rígida estrutura psicológica que permitiu que fôssemos devastados para uma nova estrutura mais flexível, mais adaptável e mais resiliente que nos permita uma atitude mais autoprotetora e mais salutar diante da vida daqui por diante.

Ao não termos a opção do amor do outro porque ele não corresponde a nossa intensidade e profundidade emocional, somos devastados e abandonados à própria sorte. Não temos opção a não ser cuidar de nós mesmos. E nesse caso, não ter opção é a única saída, a única forma de libertação.

Quando experimentamos rejeições parciais por um longo tempo, isto é, quando a pessoa amada rejeita partes de nós mas não termina a relação, podemos viver a ilusão (triste) de que receber um meio amor é melhor do que nada. Somos amados apenas em parte, pela metade, vivemos um amor pela metade, um meio-amor. Tentamos nos iludir de que não precisamos de mais.

É só uma ilusão, porque gradativamente vamos nos apagando, perdendo a nossa alegria de viver, nossa vivacidade e com ela perdemos também a nossa saúde. Não podemos (nem devemos) condicionar a nossa alma a se contentar com menos do que ela precisa. Isso é tortura, é violência. É submetê-la a um estado de privação permanente. Você deixaria alguém que você ama morrer de fome? Fome de amor mata a alma.

Podemos passar a vida pulando de relação em relação, de galho em galho, sempre nos sentindo menos do que somos, esperamos menos do que precisamos. Mas a privação das necessidades da alma cobra um preço muito caro: trocar a possibilidade de uma vida vivida plenamente pela amargura, pelo descrédito no amor. Isso seria abandonar a possibilidade de um real encontro amoroso com tudo o que ele possa trazer de ternura, afeto, vivacidade e cura para ficarmos presos nas grades cinzentas do pessimismo, que dizem não haver nada melhor para nós.

O sofrimento serviu para afrouxar as rígidas estruturas que se mostravam defasadas: exatamente aquelas que nos fizeram ignorar os primeiros sinais claros de rejeição e que nos mantiveram presos a uma relação que nos maltratava a alma. O sofrimento serviu para aprendermos a conhecer e redefinir os nossos próprios anseios, nossas próprias necessidades emocionais e nossas expectativas com relação aos afetos.

Mais do que escolher o caminho que os outros considerado correto , você começa a trilhar o seu próprio caminho em direção aquilo que a faz sentir viva, que a desperta para a vida. Você escolhe não se sentir mais vítima de uma rejeição. Escolhe não culpar o outro. Escolhe ser a heroína da própria história. Para fazer isso, é necessário abandonar o discurso seguro e indulgente da autovitimização. O desconhecido assusta e requer coragem. E coragem não é não sentir medo. Se alguém lhe diz isso, não sabe minimamente do que está falando. Coragem é não se deixar paralisar e estagnar pelo medo. Isso é coragem. Só isso.

Ao contrário do que diz o coletivo das pessoas, não há um troféu de felicidade pronta nos esperando no final do sofrimento. A recompensa pelo nosso esforço, se é que podemos chamar assim, é a possibilidade de uma resposta mais equilibrada às próprias necessidades, tristezas e insatisfações. Nós vamos buscar encontrar o que nos faz felizes. Nós vamos criar os nossas próprias premiações.

O amor, todo o amor, inevitavelmente traz alguma dose de sofrimento. Sofrer menos significa saber se adaptar melhor à vida. No encontro de duas almas com histórias de vidas distintas sempre há colisões (algumas muito grandes outras nem tanto), sempre há choques: são visões de mundo distintas e distintas formas de ver e sentir a relação amorosa.

A medida do quanto uma relação amorosa satisfaz as nossas necessidades vitais é dada pela nossa capacidade de nos sensibilizar pelo outro, de nos permitir tocar e comover pelo outro, mesmo pela rejeição. Mas é preciso saber usar a rejeição a seu favor.

Quem atravessa o difícil caminho de romper as próprias e rígidas estruturas, acaba por não mais se satisfazer com relações onde os parceiros não se deixam sensibilizar pelo amor. Se não devemos entrar em uma relação querendo mudar o outro, é muito salutar ter o desejo e a expectativa de sensibilizá-lo. Se isso não acontece, a "fila anda".

Deixar-se sensibilizar, comover e influenciar pelo amor é o sentido daquele grande e magnífico encontro de opostos que se atraem. Se isso não acontece, provavelmente é uma relação que vai deixar sempre a desejar.

Quando, além do choque de visões de mundo, existe disposição em acolher a diferença, a ternura e o carinho têm a incrível capacidade de ajudar a afrouxar as próprias amarras psíquicas sem grande sofrimento. Esse seria o caminho ideal. Uma relação amorosa tem o mágico poder de nos transformar em alguém melhor e mais feliz sem nos violentar (a rejeição dói como um ato de violência). Com amor e aceitação, conseguimos nos emancipar das rígidas e sufocantes estruturas que criam obstáculos para nós mesmos e para a nossa relação amorosa. Essa é a "cura" que o amor tem capacidade de nos proporcionar.

Seja qual for o modelo de relação adotada pelos amantes (namoro, casamento, caso, amizade colorida), é o encontro afetivo, a profundidade das trocas afetivas e simbólicas que podem dar sentido à vida de cada um. O significado de uma vida plena só é conhecido quando temos a coragem de ouvir a nós mesmos e levar às últimas consequências o nosso universo emocional: medos, anseios, desejos, expectativas, necessidades, sensualidade, sexualidade, erotismo. Para isso, é preciso inevitavelmente arcar com os custos do sofrimento e com as possibilidades de transformação.

Geralmente, as pessoas que experimentaram um sofrimento muito intenso e prolongado decorrente de uma rejeição, quando começam a se restabelecer, costumam se referir a essa fase como uma espécie de renascimento. O sofrimento que as cindiu é sentido e referido como uma experiência de "morte": a morte é o esgotamento de um modelo de funcionamento psíquico que já não agrega mais nada, e não tem mais nada de bom a acrescentar na vida da pessoa.

Dificilmente, o sentimento de liberdade adquire um significado tão particular como nestes casos. É um sentir-se livre de si mesmo, livre de um "eu antigo, defasado e doente" que não pode lhe ferir mais. Esse é sentido de renascimento. "Eu sou a mesma pessoa, mas agora sou tão diferente... Estou livre de uma forma de pensar e sentir as coisas que me aprisionava em relações insatisfatórias."

Podemos inclusive invocar, para fins didáticos, a imagem da crisálida e da borboleta: é essencialmente o mesmo ser em duas fases distintas da sua vida. Dificilmente alguém não se encanta ao ver uma borboleta colorida. E dificilmente alguém conhece o sofrimento que ela experimentou até adquirir aquela bela forma.

Para cada um de nós que nos permitimos fazer mergulho interior, a experiência adquire contornos, sentidos e sentimentos muito específicos e particulares, e até mesmo intraduzíveis fora da linguagem poética. No entanto, é um sentimento bem conhecido dos artista, poetas e músicos.

Não importa a razão que o empurrou para esse mergulho interior, se foi uma grande e única rejeição ou se foi uma sucessão de pequenas e nem tão sutis rejeições. Não foi um amor inútil nem uma forma inútil de amar. "Nem foi tempo perdido", como disse o poeta. O que importa realmente é que foi a experiência necessária para que você se emancipasse.

Um sofrimento muito doloroso provocado por uma rejeição parece gratuito e sem sentido. Esse pensamento é que nos induz a resistir à mudança. No entanto, é significativo que quanto mais intenso e prolongado foi o sofrimento vivido, mais rígidas e complicadas eram as amarras das quais precisávamos nos libertar. Isso explica perfeitamente a liberdade que experimentamos depois de atravessar essa fase.

É uma sensação de vitória, uma vitória na qual não há competidores, uma vitória silenciosa quase inexplicável. Dificilmente alguém consegue compreender esse sentimento de liberdade se não experimentou antes o sentimento de devastação.

Você não sairá dessa experiência de dor e sofrimento com uma alegria torpe e desmesurada, nem com uma embriaguez eufórica. Não esqueça do que diz o poeta: "rir de tudo é desespero". O sentimento se assemelha mais a uma revitalização: uma espécie de salto qualitativo na sua qualidade de vida, uma preocupação maior com o autocuidado, um ganho incalculável em espontaneidade e autenticidade. É como se você tivesse abaixado significativamente o volume de suas ansiedades, angústias, temores, neuras e preocupações. Você não fica encanada se está ou não bonita. Você se sente bonita. Se outros não concordam, é problema deles! Você não vai querer ficar bonita para alguém, você vai ficar com alguém que já a considera linda. É desse jeito.

Você percebe que já não liga mais para para os mesmos medíocres aborrecimentos cotidianos que ainda parecem preocupar a maior parte dos seus familiares, amigos e colegas. Experimenta um nova sensação de leveza na forma de ver, sentir e levar a vida. Os julgamentos, as intromissões, as opiniões e as críticas alheias já não encontram mais eco na sua alma, nem ficam mais reverberando em seus pensamentos. Você pára de ruminar preocupações. Começa a trilhar um caminho próprio, único, singular e autêntico. Um novo caminho perfeitamente de acordo com essa nova fase de sua vida.

É mesmo uma espécie de renascimento, uma nova chance, um recomeço. Só que desta vez você não vai tropeçar nas mesmas pedras de antes porque agora já carrega uma boa bagagem de sabedoria consigo. E essa é a única bagagem de que realmente precisa.

Isso não vai impedi-la de errar. Serão novos erros, novos tropeços, novas experiências. Sem grandes quedas ou devastações. É isso o que anima a vida.

Acima de tudo, fica a dica:

Não se julgue. Não se culpe. Não se maltrate pelo que viveu. Se você precisou atravessar um número considerável de rejeições para chegar até este ponto, que assim seja. Basta compreender que:

Você não precisa ser rejeitada pela milésima vez, 999 vezes já foi suficiente para convencê-la a cuidar de si mesma. Agora, é hora de escrever um novo capítulo ou talvez um novo livro para a sua vida.

Beijo na alma!

#rejeição #amor #psique #psicologia

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