A Sedução De Um Tagarela


Não subestime o poder de sedução de um tagarela. O tagarela seduz pela sua inteligência (ou aparente inteligência): alguém que fala centenas de palavras por minuto, que evoca vários assuntos, que traz à tona memórias antiquíssimas, que estabelece centenas de conexões entre temas diferentes e contrasta tudo isso com a experiência real... Só pode ser muito inteligente! Brilhante! Encantador!

Quem descreve tudo nos mínimos detalhes e abre infindáveis parêntesis, definitivamente arranca suspiros! Não basta ser tagarela, precisa ser prolixo!

Há um charme absolutamente irresistível no homem que emenda assuntos, empolga-se sozinho com as lembranças, desata a rir antes mesmo de finalizar a piada, dialoga em voz alta consigo mesmo, faz inúmeras perguntas e tem tanta urgência nas respostas a ponto de responder ele mesmo a todas elas!

Eu assisto aquilo tudo com grande admiração. É uma sensação maravilhosa ter a minha torrente opressora de pensamentos invadida por uma torrente ainda maior de palavras do outro. A tempestade de palavras alheias suaviza a tempestade do meu universo interior. Inunda. Encanta.

É, eu fico absolutamente encantada. Assisto à prolixidade do outro como um oceano no qual desejo mergulhar e me perder. E, não raro, me perco mesmo. Na verdade, eu me perco a toda hora. Não tenho nenhum medo de me afogar. Eu me afogo em suas palavras e em suas histórias, verdadeiras ou ficcionalizadas. Eu não persigo a verdade. Vivo as possibilidades do discurso compulsivo.

Eu vivo o tsunami de palavras e de conexões improváveis. Para ser honesta, sou arrastada por essa onda gigante. Enfim, eu leio os ganchos estabelecidos entre as histórias, ganchos conscientes ou inconscientes, persigo as pistas das emoções que estão escondidas sob a torrente das palavras. Eu vivo a destruição renovadora do tsunami.

Há quem diga que o falatório atrapalha o estabelecimento de uma conexão profunda. Só para quem entra em pânico, se debate, se perde na torrente, e não sabe mergulhar!

Há quem diga também que o tagarela não é bom ouvinte. Discordo. Ele ouve. Mesmo quando não sabe que ouve, ele ouve. Ouve e é empático. Suas próximas histórias sempre serão sobre o tema principal daquilo que ele acabara de ouvir. Pode até não ouvir a sua história até o final, mas quando lhe interrompe com a sua tagarelice crônica, já terá uma resposta, uma dica, uma opinião, uma solução ou qualquer história que traga todas as respostas que você precisa. Nem ele sabe que faz isso, mas faz! E faz muito bem!

É claro que às vezes, você precisa dar uma ajuda: precisa gritar para que ele ouça, mas ele ouve!

O tagarela ouve rápido, interpreta rápido e julga rápido. Às vezes, preciso reinvindicar a palavra, interromper bruscamente, fazer mímica, levantar a voz, interpor-me para me fazer entender. Preciso ser rápida para evitar ou para corrigir interpretações equivocadas. Se demoro um pouco, como já demorei antes quando meu raciocínio era mais lento, a confusão se instala.

O mais apaixonante é que o tagarela se apaixona rápido. Tão rápido quanto seduz. Ele sabe que só precisa de alguém que se disponha sem receios a mergulhar em sua torrente. Alguém que não tenha medo de ser arrastado pela onda gigante nem fique cheio de dedos de se afogar no excesso. O excesso de palavras é o excesso de emoções. Precisa de alguém que não hesite em confrontar suas apressadas conclusões.

Depois de vários anos, reencontrei um amigo tagarela nos bate-papos da internet. Conversamos muito por chat, email, mensagens, sms e telefonemas. É claro que não exatamente na mesma medida!

Ele falava e falava. E eu falava nas brechas. Eu que já não escondo mais ter um fraco por tagarelas, acabei ficando encantada pelo seu universo, pelos seus assuntos, pela vivacidade contida na tagarelice, pelos gestos vívidos, pela empolgação, pela energia. Era um teatro interativo irresistível!

Ele falou tanto que eu fiquei apaixonada! Ou meio tonta, é difícil saber... Em dois meses, ele me pediu em casamento. Eu estava cercada de dúvidas. Ah.. mas um tagarela também é ligeiro em argumentar!

Eu resisti o máximo que eu pude em dar qualquer resposta: mais ou menos uns dois dias. Fazer o quê? Eu simplesmente adoro quem desmonta com facilidades as armadilhas sinuosas que minha mente cria para me impedir de ser feliz. Ela tem um talento imbatível para criar dúvidas inúteis. E o danado do tagarela é muito hábil em contorná-las.

Para me assegurar de suas boas intenções, e dissipar as minhas dúvidas, ele adotou uma estratégia: comprou uma passagem para que eu fosse morar com ele, e me mandou o voucher por email. Eu não sei se eu sou muito influenciável ou o que mais poderia ser, mas eu realmente me senti mais segura com isso.

Acho que era ele que estava com dúvidas se eu estava mesmo apaixonada ou se apenas tinha ficado tonta com o falatório. Por isso, comprou a passagem com quatro meses de antecedência: para me dar tempo de descobrir isso. O problema é que continuou tagarelando e tagarelando, então continuamos sem saber.

Pediu também que eu selecionasse os pertences que traria comigo, e fizesse um orçamento de frete para longa distância. De repente, tudo ficou tão claro!

Se ele se ofereceu para pagar um frete de um monte de bugigangas que nunca tinha visto, nem sabia do que se tratavam, apenas porque possuíam valor sentimental para mim, não havia dúvidas de que era amor verdadeiro! Ou talvez também estivesse com suspeitas de tontura. Vai saber se o raio não cai duas vezes no mesmo lugar... Foi tudo tão mágico! Além dos monólogos intermináveis, havia longos poemas de amor, e longos emails onde acordávamos os aspectos práticos da relação.

Eu vim morar com ele e descobri a verdadeira magia do amor! Senti que teria de aprender a falar mais, mais alto e mais rápido se quisesse me fazer compreender bem. Não seria um processo natural. Ele não calaria a boca de repente, olharia para mim, e do nada perguntaria se eu preciso ou se eu quero dizer alguma coisa... Rá!

Não hesitei e comecei a falar até ficar rouca. Nem por isso ele passou a falar menos. Chegamos a brigar algumas vezes pelo direito à palavra, pelo roubo da palavra, pelo sequestro da palavra. Denunciamos os crimes um do outro. Percebi que às vezes ele mergulhava na minha fala.

Dia desses, ele reclamou que eu falava demais, que ele mal conseguia falar um pouquinho... E eu... Eu caí na gargalhada!

Não foi uma gargalhada de deboche. Foi apenas uma gargalhada. Eu entendo o dilema em questão. Consigo compreender profundamente o drama existencial de um tagarela que sente na pele a dor de perder o monopólio da palavra, que tende a lutar para reaver o monopólio, e precisa lidar com o silêncio da própria voz, ainda que por breves momentos.

Confesso que saber disso não me impediu de ter dores de barriga de tanto rir. Casamos oficialmente. Estamos junto há quase três anos. Fazemos planos para o futuro. Dentre as lindas imagens de um futuro feliz está a de um casal de velhos tagarelas. É um sonho idílico.

Ainda hoje não descobrimos se é amor verdadeiro ou se eu apenas fiquei tonta há mais de três anos com aquele falatório todo e ainda não me curei. De uma coisa, porém, eu tenho certeza: eu também vejo ele ficar tonto e feliz quando eu desato a falar. ******

#sedução #conquista #relacionamento #tagarela #conversa #atração

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