Intraduzível


Ah, o destinatário do meu amor: o homem amado, o deus que habita em mim e me completa! O seu espectro vive em minha alma, e atinge todas as esferas da minha vida. Me impulsiona e me compele, através da busca de si, em um desejo ardente e incontrolável, a me transformar. E me transforma tão profundamente, ao me fazer encontrar primeiro, antes de si, a mais estranha e misteriosa das criaturas: a mim mesma! Parece um mergulho hipnótico, esse transe extático que me prende em si. Promove um rapto e me faz incompleta, fragmenta minha alma e leva parte consigo. Aquele amor que é seu, sempre o foi! Não me pertence mais - nunca pertenceu! Sequestro peculiar esse que me vitimiza: ao me tomar de mim uma parte importante, me faz ser completa, me liberta, pelo consentimento em que lhe abri as portas e me aceitei perder. Encontrei o tudo de mim que me faltava, e que nem soubera antes que havia perdido. O rapto maior foi o da correspondência: o meu amor por ti não saía em palavras, e as palavras que escapavam, me traíam vergonhosamente. E eu que pensava que o coração é que era o louco desmedido! Acabei por ser traída pela confusa, fria, cruel, desorganizada, megera racionalidade. Foi ela que, na tentativa de mediar o encontro entre o homem amado e minha alma, usurpou-lhes os sentimentos e deturpou-lhes os significados. Traiu os acordos. Adulterou-lhes as cláusulas. Adoeceu-me a alma! Imprimiu cores mortas às antigas cores vívidas. Mutilou o homem amado, ao confinar-lhe à posição de um deus. Toma ciência o coração da pérfida traição que a razão impôs ao traduzir / trair o indizível, ao confinar o inexprimível à posição do racionalizável. Ciente está o coração de que não tem ciência de coisa alguma, que libertou das garras do deus cruel o homem frágil, deixando-o desaparecer novamente na névoa do desconhecido. Abandona a mente a pretensão reducionista de reduzir o amado à dimensão do explicável. Liberta-o das amarras e grades do conhecível. Assuma, coração, a autoridade sobre o que lhe pertence, Diga do que toca profundamente a alma e a transforma, fala das emoções suscitadas pelos sinais que lhe chegam aos sentidos: que o amado é o autor do movimento que lhe alterou a forma como tudo é percebido. Prova isso com a convicção, de que reduzir o amado à dimensão do racionalizável seria raptar do homem aquele amor que lhe corresponde: o amor, este sim, que é o deus da minha alma, suscitado em mim pelo homem profano, e retribuído a ele como sagrada dádiva!

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#traição #amor #declaraçãodeamor #rapto

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