Pessoas Intensas: as dores e as delícias de ser o que se é.


Sinto, logo existo.

Existe uma "economia emocional" mais ou menos implícita que rege a maior parte dos nossos relacionamentos. São orientações espalhadas em livros de aconselhamento e em crônicas de relacionamento que apresentam ideais que definem o que é um relacionamento saudável, que tipo de comportamentos são aceitáveis, como as pessoas devem sentir e se apresentar para serem bem vistas e avaliadas, e principalmente como devem encarar as emoções, etc.

A "economia emocional" mais difundida traz inúmeros códigos que nos dizem por exemplo que devemos "investigar" a fundo a vida de alguém antes de nos envolver mais profundamente, que existe um "ritmo natural" a ser seguido em uma relação saudável, e principalmente, pela via negativa, para que a relação não seja considerada precoce ou precipitada. São conselhos que dizem, na sua maioria, que devemos parar de criar expectativas se quisermos ser felizes ao lado de alguém. Fora algumas vozes dissonantes, o coro dominante parece dizer: "contente-se com pouco para ser feliz".

Muitas pessoas levam tão literalmente asério o comando de reduzir as expectativas que, sob o pretexto de não se frustrarem, vão reduzindo-as gradativamente, aceitando cada vez menos do outro, a ponto de aceitarem receber algumas poucas migalhas de afeição. Confundem a existência de expectativas com a certeza da frustração. E adivinhem o que acontece? Levam uma vida que mais parece uma enciclopédia de tristezas e decepções.

As expectativas só são ruins quando são infantis, idealistas ou irrealistas. A meu ver, a expectativa realista não é inimiga, e sim uma boa mestra: se ela for adulta e capaz de aprender e se reinventar com seus erros, pode orientar muito bem o caminho à felicidade.

Desafiando boa parte dos manuais de auto ajuda, desafiando uma gama significativa de conselheiros sentimentais e alguns terapeutas medíocres, existem as pessoas intensas: pessoas que percebem e compreendem o mundo através das lentes das emoções.

Na sociedade contemporânea, as qualidades mais valorizadas exaltam a racionalidade. Ser racional implica ver as emoções sob a ótica da razão e submetê-las à autoridade da razão. Isso tem implicações sérias. Uma delas é a patologização e a medicalização excessiva dos sentimentos e das emoções humanas. Em suma, você deveria pensar mais do que sentir, preferencialmente pensar ao invés de sentir.

Nesse contexto, somos compelidos a suprimir as emoções que não conseguimos explicar, ou reduzir as emoções a psicologismos e racionalizações. Nós acabamos nos acostumando a ver as emoções das outras pessoas com desconfiança e estranhamento, e não raramente elas são taxadas de loucas, afetadas ou histéricas. Uma prova disso é que a indústria farmacêutica nunca esteve tão bem das pernas, com pessoas acreditando cada vez mais que suas emoções são patológicas, numa tendência à medicalização excessiva ao menor sinal de "ruído emocional". Não seria melhor ouvir a voz das emoções?

Algumas pessoas resistem a se deixar engolir por essa lógica. São as pessoas intensas: pessoas que perceberam, em algum momento, as consequências nefastas do silêncio emocional que literalmente lhes adoecia o corpo e lhes sobrecarregava a mente. Normalmente, são pessoas que se acostumaram muito cedo ao bullying social: serem rotuladas de loucas, afetadas, histéricas, passionais, irracionais, idiotas e a lista segue... (Especialmente se forem mulheres. Durante muito tempo, a medicina tratou as emoções femininas como "histeria" que deveria ser "curada". Alguns terapeutas ainda se deixam levar por esses preconceitos.)

Se a intensidade das emoções fosse uma mera questão de doença, o tratamento por si só traria uma substancial melhora e adequação da pessoa às próprias expectativas e às expectativas sociais (ao que os outros esperam dela). No entanto, o que muitas vezes acontece é que a medicalização excessiva das emoções acaba produzindo uma desconexão da pessoa consigo mesma e um embotamento da criatividade. Falo por experiência própria.

O tratamento é muito útil e válido para atenuar o sofrimento da pessoa intensa quando ela não consegue um canal de expressão, acolhimento, aceitação e compreensão de suas emoções. Contudo, os profissionais devem ter o discernimento fino de distinguir quais são os limites daquilo que é tratável, e o que é próprio da natureza da pessoa emotiva. Algumas vezes, o profissional de saúde mental se encontra tão empático com o sofrimento do paciente, e exagera na tentativa de atenuá-lo, quase impedindo que o mesmo sinta. É necessário distinguir o que é a natureza da pessoa, sua visão de mundo, e os anseios mais profundos da sua alma.

Pessoas intensas possuem uma visão de mundo peculiar, derivada da forma emocional como apreendem o mundo. Não são em geral pessoas que julgam profundamente alguém conhecendo detalhes específicos de sua história e analisando racionalmente o seu passado. Sabem que as experiências moldam as emoções, o caráter e a personalidade, assim como sabem que a pessoa que viveu tudo aquilo, não saiu de cada experiência da mesma forma que entrou.

Trocando em miúdos, são pessoas cuja atenção está voltada mais para as emoções do outro, para a forma de sentir e se relacionar, do que para fatos específicos da sua vida que o conduziram até ali. (Por exemplo, eu costumo saber mais de como alguém se sente e do que necessita do que consigo lembrar de quais foram as causas originais do seu mal-estar.) Não se trata de negligenciar eventos específicos da vida da pessoa, mas de saber que a pessoa que acertou ou errou há dez anos atrás, precisou ter acertado ou errado, isto é, precisou ter vivido o que viveu para se tornar quem é hoje.

Pessoas intensas são pessoas que confiam mais nas emoções que alguém sente e é capaz de suscitar, do que no relato puro e simples de experiências anteriores. Um exemplo objetivo: quando uma pessoa intensa se interessa por alguém que já foi casado, não concentra sua atenção em saber detalhes do antigo relacionamento, tempo de duração, quem era o ex parceiro, ou as razões que motivaram o fim do antigo relacionamento .

Ao invés disso, concentra sua atenção em descobrir como o seu atual pretendente se sentia na época, o que ele esperava do antigo relacionamento, como ele se sente e como enxerga a relação a dois, quais eram e quais são suas expectativas. São essas coisas que informam muito à pessoa intensa sobre quem é a pessoa que ela está interessada. O que ela presta atenção são coisas que dizem como alguém vê o relacionamento. Que fornece pistas e códigos de tudo aquilo o que é importante para ela. Desnuda a sua alma antes de desnudar a sua vida. Dá a conhecer os seus conflitos e os seus anseios antes de suas causas.

As pessoas não permanecem estáticas nem agem independentes do contexto em que vivem. Pessoas intensas sabem disso porque aprendem isso através da lente das emoções. Elas se envolvem profundamente nas emoções do outro. Não costumam fazer generalizações abusivas sobre o caráter de alguém se baseando em "erros" pregressos, e sim se dedicam a compreender as suas emoções e motivações. Por exemplo, eu não acreditaria na visão simplista que diz que alguém que foi infiel em um relacionamento anterior, faria a mesma coisa em um relacionamento atual, a não ser que considerasse que a pessoa é um robozinho programado a repetir comportamentos. É claro que existem padrões comportamentais, mas isso também pode ser aprendido através das emoções.

Pessoas intensas se concentram em como a pessoa se sentia no relacionamento anterior, mais do que no que ela fez ou deixou de fazer. É uma forma inocente de receber alguém na sua vida. Inocente porque é receptiva e orientada para a compreensão e o acolhimento. Inocente porque implica empatia, sentir com o outro. No entanto, inocência não deve ser confundida com ingenuidade. Quem apreende o outro através das lentes emocionais, não se deixa levar por belas e elaboradas histórias, por listas recitadas de desculpas e justificativas. Quem apreende o outro através das emoções, acredita nos olhos, na respiração, nas expressões faciais sutis e inexplicáveis, nos jeitos, nos gestos, nos silêncios, no intercâmbio entre o olhar atento e o olhar perdido, na voz firme ou embargada, nas decisões e nas hesitações.

Costumamos cometer o grave equívoco de confundir uma pessoa intensa com uma pessoa viciada em emoções fortes. O viciado é aquele que procura neutralizar ou potencializar as emoções e as sensações usando de artifícios sem os quais a vida mergulharia no vazio e no tédio. Ele depende desses artifícios ou acredita que depende. A pessoa intensa não possui o vício em algo. Não precisa de artifícios. Ela simplesmente é intensa. É assim. É sua natureza. Sente emoções fortes em todas as esferas de sua vida. Não é alguém que busca emoções fortes ou adrenalina. Ela não busca um estado de euforia. A euforia é demais para ela, que já sente tudo tão intensamente. Se ela busca algo na vida, é tranquilidade.

A pessoa intensa não é aquela que tenha desejo ou necessidade de qualquer droga para sentir porque já sente tudo. Algumas pessoas intensas podem acabar recorrendo às drogas quando não encontram um canal de expressão para as suas emoções ou não encontra apoio ou acolhimento, nem consegue atenuar o seu sofrimento decorrente disso. Não há uma relação direta entre os dois.

A pessoa intensa sente a alegria de um dia de sol porque se permite afetar por ele. Sente a massagem gostosa do vento batendo no rosto da mesma forma que sente profundamente não tomar um desjejum a contento, ou não conseguir um momento em silêncio para divagar e mergulhar em seu mundo interior.

O grande problema de recriminar ou medicalizar indiscriminadamente as emoções das pessoas intensas é que assim retira-se delas as suas ferramentas, capacidades e habilidades se compreender o mundo e as pessoas, de se orientar no mundo, de se comunicar e de aprender algo novo. Por isso, ao medicalizá-las excessivamente, elas perdem todo o seu potencial criativo e - eu ousaria dizer até - a sua capacidade de entendimento, discernimento e julgamento.

Para as pessos intensas, as emoções consistem no seu sexto sentido, um sentido que precisa de treinamento, e que é muito mais poderoso e atuante nelas do que qualquer outro. Abaixar o volume das emoções teria um efeito nefasto semelhante ao de desligar a visão e o tato de alguém que já não escuta bem. Essas pessoas mergulham em um vazio perturbador muito intenso ao perder a capacidade de comunicação consigo mesmas e com as demais. Sentem-se isoladas em uma espécie de bolha aterrorizante.

A pessoa intensa não possui limites pré-definidos, ela aprende os limites dia-a-dia, durante toda a vida. Elas podem se dedicar a uma tarefa não prazerosa o mesmo esmero e dedicação que dedicariam a uma atividade apaixonante. Podem lavar uma louça com o mesmo primor de quem escreve um poema, dança uma música ou faz uma declaração de amor. Esse modo de funcionamento provoca uma grande confusão nos mais desavisados. Em geral, eles tendem a pensar que a pessoa "ama" tudo o que faz porque o faz com esmero. Não é verdade.

O centro de gravidade em torno do qual orbitam as pessoas intensas não é o prazer da tarefa ou a obtenção de resultado específico. É o envolvimento, o mergulho. É se absorver por algo e deixar fluir.

Essas pessoas aprenderam muito cedo que as armas e os escudos racionais que desenvolvemos ao longo da vida para nos defender e para combater as emoções fortes não funcionam muito bem. Não são eficientes. Mesmo que alguém siga todos os conselhos da razão, não está isento de erros. Ao contrário, está mais suscetível a errar. Mesmo que alguém conheça toda as informações possíveis a respeito de alguém, não está imune a frustrações. Mesmo que alguém se esforce em manter um regime de "economia emocional" dito "saudável" - algum que recomende "trocas comerciais" no campo dos afetos e das emoções, evitando uma profunda entrega-, não está isento da dor, nem imune ao sofrimento.

O grande desafio das pessoas intensas é administrar o seu grau de envolvimento de forma que ele não venha a lhe trazer graves prejuízos. São pessoas que não hesitam em se envolver com todas as demandas do parceiro. Seu lema de vida implícito é: "não prometo resultados, prometo dedicação". Se for preciso, são pessoas capazes de assumir os filhos problemáticos do primeiro casamento com a mesma dedicação que dariam aos próprios filhos, são capazes de prestar auxílio ao parceiro, sugestão e conforto em tudo o que lhe for solicitado.

São capazes de se envolver nos dilemas familiares do parceiro, buscar soluções, com vistas a tornar sua vida mais fácil. A pessoa intensa não invade, espera ser convidada, mas sente muito se não for. Espera que o parceiro lhe abra as portas de sua vida e de seu coração, que ela deseja cuidar como quem cuida de um tesouro, e assim, sendo convidada a entrar, ela entra e se sente à vontade. Faz do universo compartilhado com o outro um verdadeiro lar, uma morada para toda a vida.

Seu grau de comprometimento com a relação também é tão intensa que pode funcionar como uma "esponja emocional", absorvendo para si as dores do outro para lhe proporcionar alívio e conforto. Conhece como ninguém o impacto nocivo de certos conflitos, por isso é tão empática. Está familiarizada com a intensidade das dores, e se percebe que o parceiro não tem o mesma habilidade ou experiência em lidar com as dores, pode acabar por absorvê-las para si, o que pode ser extremamente prejudicial e lhe trazer grande sofrimento.

Conforme percebemos, a maior força e a maior fragilidade da pessoa intensa é lidar com as emoções. Sabendo disso, fica mais fácil compreendê-las e auxiliá-las. Elas necessitam, em algumas situações, serem preservadas ou ensinadas a lidar com pequenos aborrecimentos do dia-a-dia, especialmente aqueles recorrentes, já que sentem tudo tão intensamente. Não carecem viver sob uma redoma. Por mais supreendente e paradoxal que pareça, por compreender a linguagem das emoções fortes, essas pessoas possuem maior capacidade em lidar com situações limítrofes, situações extremamente dificeis.

Não são os grandes dilemas que as assustam. Pelo contrário, elas assimilam e compreendem com uma serenidade surpreendente -até mesmo espantosa - os grandes conflitos da vida e as situações mais dolorosas e estressantes. No entanto, sua maior dificuldade é lidar com as pequenas coisinhas do dia-a-dia, com os pequenos aborrecimentos que parecem surtir um efeito intenso e desproporcional à sua relevância. Concentradas nos grandes obstáculos, elas tropeçam e caem nas pequenas pedrinhas. Essas são as suas fragilidades. Assim, a maior competência que uma pessoa intensa precisa desenvolver é deixar que as coisas pequenas permaneçam pequenas. Uma metáfora boa para a pessoa intensa é a de um mergulhador: sua tendência a se atirar de cabeça e mergulhar profundamente pode lhe rachar a cabeça se a piscina for muito rasa.

As pessoas intensas carecem de trocas emocionais realmente significativas. Carecem de relações onde exista profundidade emocional. Carecem mergulhar em águas profundas, mesmo que elas sejam escuras. É o acolhimento da sua forma peculiar de sentir a vida que lhes permite desenvolver a habilidade de contornar pequenos obstáculos, e desenvolver a arte da resiliência frente às pequenas porém recorrentes e desgastantes dificuldades do dia-a-dia.

As trocas afetivas profundas nutrem a pessoa intensa em todas as esferas: fisica, emocional, psicológica e racionalmente. São elas que as comovem em direção a si mesmas e em direção ao outro. São elas que inspiram a sua criatividade. As trocas profundas são o combustível de suas vidas. As razões de tudo o que as tornam felizes.

Elas jamais conseguirão se adaptar a um modelo de racionalidade que despreze ou confira um caráter secundário às emoções. Elas jamais conseguirão se adaptar sadiamente às relações pouco afetivas ou muito condicionadas. Elas jamais conseguirão ser felizes em relações com um alto nível de individualismo e distanciamento. Como diz o ditado: "não se pode julgar um peixe pela sua habilidade de subir em árvores", da mesma forma "não se pode salvar a vida de um peixe, retirando-o da água onde respira".

Pessoas intensas, ao contrário das bobagens que já li e ouvi por aí, não precisam viver "grudadas" no parceiro, mas precisam se sentir envolvidas e conectadas. E precisam do envolvimento recíproco do parceiro. Precisam estabelecer uma conexão profunda.

Para pessoas com grande necessidade de espaço individual, as pessoas intensas parecem enfadonhas e afetadas. No entanto, para pessoas com maior necessidade de envolvimento afeitivo, elas parecem o paraíso na terra, um pequeno oásis no deserto. Da mesma forma que são intensas as suas emoções, elas são vistas com intensidade pelos demais. Não sentem neutralidade e não são vistas com neutralidade.

Seu desafio maior é manter a sua singularidade, sem sucumbir ao coro majoritário de vozes que as empurra em direção contrária à sua natureza. Calar a voz das emoções ou reduzir o seu volume pode ser perigoso. Representa o mesmo que calar toda a sua forma de compreender o mundo e de aprender com a experiência. Significa o mesmo que calar suas formas de comunicação com o mundo e com as pessoas . Representa calar suas formas de ser e existir no mundo e tudo o que as fazem sentir vivas. Seu lema é fluir para ser fluente. Fluir para comunicar-se, porque fluir, para elas, é viver e deixar viver.

As pessoas intensas sabem que as dores e as alegrias são inerentes à condição humana. Sabem com as emoções (seus instintos mais básicos) que não adianta fugir das emoções. É inútil apartá-las. Tudo aquilo que é reprimido irrompe com violência. Pode ser a emoção reprimida que irrompe em doença. O corpo padece de tudo aquilo que lhe negamos. Deixe-a padecer de fome e a alma morrerá.

As pessoas intensas aprenderam, com a vivência das suas emoções fortes, muito precocemente, que todas as tentativas de negá-las ou se afastar delas são ineficientes, porque nossas tentativas nem ao menos são capazes de minimizar os os impactos das emoções reprimidas sobre nossas vidas, nossos comportamentos e nossas atitudes.

Para as pessoas intensas, reduzir o volume das emoções é reduzir o bálsamo da vida, reduzir o calor do sol, reduzir o sabor dos alimentos. Negar as emoções é negar a si mesmas o direito à vida.

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