Trair, Jamais?


Costumo desconfiar de quem afirma categoricamente que é incapaz de trair. A fidelidade dessas pessoas não é motivada pelo amor, pela cumplicidade ou pela felicidade na relação. Não depende do quanto se sentem amadas, valorizadas, cuidadas e desejadas.

Sua fidelidade é motivada por uma convicção, por algum preceito moral ou religioso. Depende de um compromisso estóico com um ideal de perfeição. Depende de uma concepção idealizada de relacionamento. Pessoas que afirmam isso parecem levar a vida como se estivessem em uma competição, acumulhando milhas, concorrendo a prêmios por bom comportamento, ganhando pontos que podem ser trocados por um lugar no céu ou por um status de destaque e superioridade na família, no grupo, ou na sociedade em que vivem. Sua fidelidade depende de um compromisso individual consigo mesmas, no qual o outro não tem um papel muito significativo, nem mesmo relevante. Eu ousaria dizer que o outro é apenas um acessório que combina com a roupagem dos seus valores.

São pessoas que julgam severamente qualquer um que já tenha traído, independente de suas motivações. Jogam pedras em telhados de vidro. Demonizam qualquer um que contrarie seus preceitos. São pessoas que se acreditam movidas por um senso de superioridade moral sobre as demais pessoas do planeta, inclusive sobre o (a) parceiro (a). Racionalizam muito sobre amor e relacionamento, mas a verdade é que amam muito pouco.

Quem diz que jamais trairia, diz em outras palavras, que a fidelidade é o maior objetivo da relação. Que é praticamente uma recompensa por ter assumido um compromisso socialmente respeitável. Daí que a consequência natural desses pensamentos é acreditar que fidelidade pode ser cobrada, exigida e usada como mecanismo de barganha, chantagem emocional ou afirmação de poder. Quem nunca ouviu falar de alguém que, se considerando generoso ou um bom cristão, supostamente perdoou uma traição para em seguida começar a fazer jogos de poder na relação? Alguém que dedica todo o resto da sua vida, motivado por uma vingança mais ou menos consciente, a tentar de todas as formas fazer o outro se sentir culpado e miserável por ter procurado fora de casa um afeto que não recebia da pessoa escolhida para o "juntos para sempre"?

No fundo, pessoas que sustentam que jamais trairiam são pessoas que podem perceber instintivamente a crescente insatisfação do (a) parceiro (a), e ao invés de tentar rever suas crenças e condutas, acabam se fechando e se distanciando mais, ou ainda acabam desenvolvendo uma espécie de paranoia latente, uma desconfiança crônica -e muitas vezes infundada- que só precipita uma traição ou o fim da relação.

Sem querer "tirar o crédito" de quem traiu para tentar sanar suas carências, algumas pessoas praticamente imploram pelo chifre, tornam o ambiente tão árido, vazio, ou insuportável com desconfianças, cobranças e exigências que não só empurram o parceiro(a) para os braços de outro(a), quanto estendem um tapete vermelho para o terceiro vórtice do triângulo amoroso (o/a amante).

São pessoas que encaram a fidelidade do(a) parceiro(a) como juros obrigatórios de um investimento financeiro. Não compreendem que no amor, não há garantias. Que você pode preparar a terra, plantar as sementes, cultivar com todo o cuidado, esperar pacientemente brotar, mas ainda assim as condições climáticas podem inviabilizar a colheita. Em geral, são pessoas que querem colher os frutos das sementes que jogaram de qualquer jeito na terra, mesmo não tendo tido o cuidado diário de vigiar com o carinho, e administrar os pelcaços com o mesmo o cuidado de quem ama o que faz. São pessoas imaturas que investem em geral muito pouco, e nutrem altas e pouco realistas expectativas de ganho. Se a aplicação não render o que esperam, isto é, se o relacionamento não render a fidelidade esperada, elas ficam tomadas pela cólera.

"Eu jamais trairia!" Existe uma arrogância autossuficiente embutida nesse tipo de afirmação. A fidelidade não depende do amor. Não depende da interação. Não importa se o parceiro é amoroso, se é dedicado, se é zeloso, amigo ou cúmplice. Não importa se a convivência é boa, se o sexo é divertido, se a parceria é gostosa. Simplesmente não importa. A fidelidade para essas pessoas é uma exigência, e não a consequência natural de uma relação saudável e feliz.

Na verdade, o outro nem importa tanto assim. Dizer "eu jamais trairia" é como dizer que as emoções não importam para a relação, que o amor não faz falta, que o afeto é secundário. É se afirmar racional acima de tudo. É garantir que jamais perderia a cabeça por amor, por vazio, por tristeza ou por desespero.

É prometer com a soberba dos autosuficientes:

- "Eu nunca amargaria noites de insônia por falta de amor. Jamais sofreria o gosto amargo da distância emocional". - "Eu não sou fraco; jamais me permitiria abater pela carência ou pela falta". - "Eu nem mesmo sentiria falta dos seus beijos se você parasse de me beijar".

E ainda falta olhar outro lado dessa mesma moeda.

Dizer "eu jamais trairia, não importa o que aconteça" é o cúmulo da baixa estima por si mesmo. É acreditar que o outro nem precisa se esforçar para manter a relação, nem precisa se preocupar em ser bom (boa) parceiro (a), nem precisa manter acesa a chama da cumplicidade. Nem precisa se dedicar a você. É deixar que o outro saiba que para você fidelidade é só uma questão de promessa e dívida. É deixá-lo saber que você se considera tão pouco, e que acha que merece tão pouco, que está disposto a se contentar com migalhas de afeição. É dar-lhe o aval de que ele nem precisa se comprometer tanto assim com a relação.

Quando você diz que jamais trairia, você garante ao outro que, não importa que surja em seu caminho alguém que adora a sua companhia, alguém que ria das suas piadas, alguém que gosta de você do jeito que você é. Você prometeu a sua fidelidade, e vai cumpri-la, mesmo às custas de uma vida miserável, mesmo que precise viver de migalhas.

Dizer "eu jamais trairia", é o mesmo que dizer: "Eu sou imune a você. Não é você que importa, não somos nós, não é o vínculo que construímos, não é a nossa relação que me faz ser fiel. Isso não tem nada a ver com você! Eu não traio apenas por uma questão de princípios. Eu não sou como você. Não sou carente ou vulnerável. Eu sou melhor do que você porque sou incapaz de trair.

Dizer "eu jamais trairia" é egoísmo, é o mesmo que dizer: "Você acha que eu devo lhe dar amor e carinho? Você acha que eu lhe devo respeito e admiração? Você acha que eu lhe devo afeto e cumplicidade? Negativo! Ao invés disso, você é que me deve a sua fidelidade! Isso é direito meu! É o meu direito garantido pelo status de namoro, de noivado, pela certidão de casamento. Você está comigo, então você tem a obrigação de ser fiel!"

É o mesmo que dizer: "Não importa se você está infeliz. Se você trair minha confiança, as suas razões simplesmente não importam. Não me importa se eu traí previamente o nosso pacto de amor e cumplicidade. Não me importa se eu traí as promessas de cuidado e afeto. Não me importa se eu traí aquela admiração que você despertava em mim. Não importa que eu traí as juras de atenção, não importa que você perceba que não suporto seus papos, que eu menosprezo suas preocupações. Você foi para a cama com outro (a), você é o traidor (a), você é o (a) culpado(a)!

É o mesmo que dizer: "O meu mundo é binário, eu vejo a vida em preto-e-branco, e eu gosto assim. Nossa relação é unilateral. Sua traição sempre será pior que o meu descuido, mesmo que seja um descuido sistemático a longo prazo. Sua traição sempre será pior do que todos os seus protestos que eu ignorei. Eu prefiro acreditar que sua traição me pegou de surpresa. Eu prefiro encarnar a vítima neça peça de teatro! Eu prefiro ignorar que você há tempos me dava sinais claros de que estava se entristecendo. Eu prefiro acreditar na versão infantil de que você é um vilão (vilã) maquiavélico (a) que enterrou nossos sonhos cor-de-rosa. Não importa que há anos eles já eram cinzentos. Não importa que há anos paramos de nos divertir juntos. Não importa que há nos deixamos engolir pelo tédio. Não importa que acabaram os pequenos mimos. Não importa que estamos há anos como zumbis nos decompondo vivos na frente da televisão".

É por todos esses motivos que eu costumo desconfiar de quem diz que jamais trairia.

Eu acredito na fidelidade de quem sorri ao meu lado, de quem adora minha companhia. Acredito na fidelidade de quem se sente à vontade para conversar comigo sobre qualquer assunto, para abrir seu coração, seus sonhos, seus planos, seus medos e inseguranças.

Eu sinto a fidelidade de quem tem minha dedicação carinhosa, de quem me diz com os olhos que está feliz ao meu lado. Eu acredito na fidelidade de um sorriso rasgado que mostra uma boca cheia de dentes. Eu acredito na fidelidade do olhar presente, aquele que não se dispersa triste no vazio.

Eu acredito na fidelidade dos planos feitos a dois, dos beijos fora do sexo, das mensagens picantes fora de hora. Eu acredito na fidelidade das dicussões de quem não desiste de aparar as arestas.

Eu acredito na fidelidade do sexo gostoso. Eu acredito na fidelidade de quem se sente à vontade para realizar as suas fantasias mais doidas na intimidade de quatro paredes.

Eu acredito na fidelidade de quem troca o sexo pelo repouso quando está cansado. Eu acredito na fidelidade de quem troca o sexo pelo colo quando está abatido. Eu acredito na fidelidade de quem faz piada da pior brochada. Eu acredito na fidelidade de quem se diverte juntos tagarelando por horas a fio.

Eu acredito na fidelidade implícita na vontade constante de estar junto mesmo não fazendo nada. Eu acredito na fidelidade das pequenas coisas do dia-a-dia, porque a traição acontece somente muito tempo depois de se perder todas essas pequenas fidelidades.

O que é mais devastador na traição, não é a traição do outro. É nossa própria traição. Quando traímos a nós mesmos, aceitando ficar com alguém que não fazia planos conosco. Quando descobrimos a terrível verdade de que traímos, em primeiro lugar, nossas próprias promessas de amor ao outro. Quando percebemos que traímos em primeiro lugar os sonhos do outro, os afetos do outro, os desejos do outro. Quando descobrir que, ao trairmos os sonhos do outro, que um dia foram os mesmos sonhos que os nossos, traímos em primeiro lugar os nossos próprios sonhos de amor e cumplicidade.

O mais devastador na traição é saber que a traição do outro nem foi uma supresa tão grande assim. É saber que nós decidimos diariamente ao longo de anos ignorar nossos instintos, escolhemos racionalizar o amor, ao invés de sentí-lo. O que dói mais na traição é saber que não deixamos que o outro tocasse e influenciasse o mundo das nossas crenças arraigadas. Não permitimos que pintasse de vermelho nossos valores em preto-e-branco. Não permitimos que o amor nos transformasse.

O que mais dói na traição é o terrível choque de realidade que a vida nos dá, ao jogar na nossa cara o que não queríamos enxergar: que ignoramos todos os sinais, e desprezamos todas as chances possíveis de evitar que os problemas culminassem nesse ponto.

Costumo desconfiar de quem diz que jamais seria capaz de trair. Eu acredito muito mais em quem ao pé do ouvido que nunca se sentiu assim tão bem, tão amado (a), tão aceito(a) e tão acolhido (a). Eu acredito na fidelidade de quem diz com segurança na voz de que não tem a mínima vontade de pular a cerca porque é louco por mim, porque é louco pelo meu sorriso, porque não sente falta de nada, porque não suportaria me ver triste, porque não arriscaria perder a realidade do que construiu comigo por nada nessa vida!

Eu acredito na fidelidade de quem acredita que o amor é o maior do que todos os princípios, do que todos os valores, do que todas as crenças, do que toda a moral e do que toda a religião. Eu acredito na fidelidade de quem acredita que o amor é a base de tudo. Eu acredito na fidelidade porque eu acredito no amor.

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