Ecos Difusos e Atuais


Tudo foi muito difícil. Nada foi planejado. Eu vi nos seus olhos que, assim como eu, você sobrevivia de pequenas coisas. Não porque fossem pequenas suas coisas para mim, assim como não eram pequenas as minhas para você. Entretanto, elas eram pequenas demais para cada um de nós.

Às vezes, fáceis, outras, difíceis, as horas se arrastavam. Aos olhos superficiais dos demais, parecia não haver nada demais. E demais não havia mesmo. Havia tanto mais do mesmo! Era sempre mais do mesmo. Pouco mesmo. E o mesmo já não era suficiente. Há quanto tempo você já sabia disso?

Viemos de universos completamente diferentes. De alguma forma, existia algo de muito familiar entre eles. Uma temporalidade distinta da qual podíamos entrar e sair com uma habilidade desconhecida para muitas pessoas.

Eu senti, desde os primeiros instantes, que você possuía, sob a superfície daquela persona que me era tão admirável, agradável e atraente, um universo emocional e criativo ainda mais rico, profundo e complexo, de experiências, memórias, tradições e contradições que eu não queria ouvir nas canções de um aedo, ler nas páginas de um livro, tampouco assistir projetado em uma tela. Eu queria mergulhar bem fundo. Eu precisava mergulhar bem fundo. Eu era peixe das profundezas que morria lentamente em águas rasas.

Distante há muito de águas profundas, já não recordava minhas ancestrais habilidades de mergulho. Precisava correr riscos. Desconhecia a extensão dos mesmos. Era minha a decisão.

É, você tinha razão: eu não estava preparada. Lembra, no entanto, do coro uníssono de nossas vozes: "é possível prever as consequências futuras dos nossos atos presentes? Não é; tampouco avaliar os caminhos que percorremos enquanto os percorremos. Não sabemos com qualquer grau de segurança se uma vida foi boa e feliz a não ser a posteriori, quando finda, numa tentativa artificial de avaliação retrospectiva".

Você foi labirinto; eu, linha reta. Perseverante ao extremo no intuito de decifrá-lo. Confusa demais para me guiar bem por seus estímulos. Você tinha razão em dizer que havia mais escondido do que superficialidade do que eu propunha. Minha alma tão doída, eu vim a descobrir mais tarde, tanto temia quanto ansiava também em ser decifrada.

Minha persona fracamente esboçada foi meu único meio de subsistir em campo inóspito, em que eu carecia de uma couraça (tal qual a de Atenas), em uma época em que, apesar de tão jovem, eu já tinha desistido de um dia reencontrar águas mais profundas, e de fornecer mapas e pistas da minha alma a quem não os queria ler.

Falhamos em conectar nossos universos distintos. Falhamos em construir uma linguagem comum eficiente que traduzisse e intermediasse nossos idiomas peculiares. Para minha surpresa e espanto, você tentou encontrar, na linguagem do seu universo, os primeiros vocábulos da linguagem da minha alma, antes que eu mesma a tivesse encontrado.

Sabia você que para ter vivido até aquele momento eu precisei trancá-la e amordaçá-la? Nem ao menos me ocorreu, mesmo que por um breve momento, que alguém estivesse disposto a ouvir os seus gemidos surdos. E o que é pior: eu temia que ela fosse morta por quem quer que a escutasse.

Embora mantivesse planos de libertá-la, eu já não mais a ouvia. Eu tinha planos frágeis de que um dia, tão logo mudasse de contexto, conseguiria libertá-la, e poderia observá-la correr livre, leve e solta. Sabia que pisava em campo minado, e precisava de uma estratégia ousada porém perigosa: abaixar ao máximo a voz das minhas emoções para encontrar em meio a razão, um caminho para fora do campo minado.

E você virou tudo de pernas para o ar!

Você acordou a pequena selvagem agonizante que, desesperada, começou a se debater. Roía as mordaças e me enlouquecia diariamente com seus gritos ensurdecedores, seus socos e chutes por todo o meu corpo. Ela padecia com uma raiva imensa represada por todas as vezes que lhe calaram o seu riso frouxo. Ao meu redor, ninguém suportava aquela existência leve, que quando torturada, irrompia em fúria. Ela era tão doce quanto implacável. E eu que tanto temia que minha selvagem fosse queimada viva!

Você percebeu que a mantive reclusa para que sobrevivesse? Você sabia que eu tinha planos de libertá-la? Não lhe ocorreu que eu não podia acordá-la tão abruptamente? Ela estava ali havia muito tempo e, ao ser chacoalhada, não seria paciente.

Àquela altura, eu já não podia mais vê-lo. Já não mais sentia a sua presença. Você acordou a selvagem adormecida, e desapareceu em névoa densa. E eu lembro de te odiar por isso. Eu te odiei justamente porque te amei mais do que tivera amado qualquer alma que, assim como a minha, podia ser tão doce e violenta, antes da tua.

Não acredito em almas ternas que renegam o que tem de selvagem. Não acredito em sorriso doce, se o olhar nunca tiver maldade. Não acredito que se descubra o fundo, ao se olhar somente de passagem. Não acredito que se descubra o bom, sem que dispensemos antes todas as miragens.

Não me agarro a qualquer ideia que me impeça de ver a verdade. Não acredito em qualquer verdade, sem me demorar o olhar por todas as faces. Não me agarro a inscrições de giz, depois que a chuva molha a paisagem.

E se eu tivesse só uma pergunta que meus lábios insistissem em pronunciar, perguntaria: "por que tocaste fundo se pretendias desaparecer?"

Talvez pediria: "se além de marcas, deixas cicatrizes... me tatua a alma para me enrubescer?"

Faz novos desenhos, deixa bem vermelhas as minhas bochechas no entardecer. Me relembra agora como é ser direta, e triangular os olhos para me esconder.

Me coloca embaixo daquele antigo casco, não porque eu precise agora, apenas porque eu quero.

Me arranca aqueles velhos e outros novos risos, se tu perceberes que eu quero morder.

Você bem já descobriu que hoje eu já não sou tão doce, eu já não sou tão terna, nem tampouco amarga, muito pouco ingênua...

...que eu já não me importo, se me acham torta, se me acham certa, ou se estou errada.

Que já não mais me servem quaisquer clichês que me tragam na vida pouco mais do que uma parada.

Minha vida é fluxo... e a vida flui em mim, tanto nos caminhos quanto nas topadas.

E eu sigo em frente só me perguntando se, em um reencontro, eu perguntaria de uma só tacada, o que me tira o sono, me alimenta os sonhos, e me leva em frente:

(Talvez eu admitisse em alta voz... que seus estímulos ainda sobrecarregam meus sentidos. Talvez te questionasse abertamente: eles falam da tua persona- mestra ou da tua alma viva? Talvez eu não dissesse nada e só me perguntasse):

"Isso são apenas ondas que ainda irradiam do teu primeiro toque que despertou minha alma?

Ou seria apenas a voz polifônica da minha alma selvagem que fala em minha mente às vezes tomando de empréstimo o som da tua voz?

Ou sua voz existe e está mesmo difusa (mesmo que eu não a identifique) no ambiente em que hoje eu trafego?

Existiria mesmo uma mensagem criptografada em alguns dos meus delírios? Ou minhas lágrimas ainda se derramam porque eu apenas sonhei e nunca (re)encontrei tão profundas águas das quais necessito?

Ou é apenas o desejo constante da minha alma de alcançar a tua, que leva a minha mente a buscar incansavelmente, pistas suas nos ecos antigos e difusos da tua persona?"

Ecos difusos e atuais.

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