A depressão feminina: Perséfone raptada


E você, já se sentiu "raptada" de si mesma? Já experimentou a sensação, em sonhos ou na vida real, de ter sido sequestrada? Se você foi clinicamente diagnosticada deprimida, saiba que a depressão na mulher pode assumir características psicológicas específicas semelhantes a de um "rapto": o rapto mitológico de Perséfone por Hades, o deus do mundo inferior.

Compreenda aqui como acontece esse "rapto" na vida real, quais são as causas sociais e culturais, diretas ou indiretas, que podem levar a mulher a desenvolver uma depressão crônica. Mais do que isso: compreenda que a depressão, além de ser uma doença orgânica, pode ter suas origens nos conflitos emocionais derivados de problemas nos contextos familiar e social nos quais a mulher vive. Compreenda sobretudo que as medicações, apesar de ajudarem no processo de recuperação, representam "muletas" que você pode utiizar por algum tempo, mas não são (de forma alguma) a solução definitiva para "voltar a andar" por si mesma, em liberdade, livre do cativeiro da depressão.

Recuperar-se de uma depressão crônica requer o seu esforço de investigar as origens do seu "rapto" na vida real, compreender como ele funciona, reconhecer que fatores na sua vida psíquica estão representando o papel do seu "raptor", para que você possa encontrar respostas adequadas, e consiga resgatar a si mesma desse longo e, aparentemente interminável, cativeiro.

A mitologia explica a psique feminina e a depressão

Na tradição mitológica grega, a primeira geração dos deuses olímpicos foi composta por: Zeus, Poseidon e Hades. Os três irmãos dividiram o mundo entre si, e cada um tomou posse de um reino em particular: Zeus reinou no céu (o Olimpo), Posêidon nas profundezas do mar, e Hades no mundo inferior (ou mundo dos mortos). O mundo dos mortos não pode ser confundido com o inferno cristão. Era lá que segundo os gregos, as almas dos mortos viviam, no esquecimento dos vivos, como pálidas sombras do que já foram um dia em vida.

No mito, Perséfone era filha de Zeus, deusa jovem e inexperiente que gostava de passear pelas campinas colhendo flores. Um dia, foi seduzida por uma bela flor de narciso, criada especialmente para encantá-la, e quando se abaixou para apanhá-la, da terra abriu-se uma fenda, de onde saiu Hades em sua carruagem puxada por possantes cavalos negros. Ele agarrou a virgem aterrorizada que gritou por seu pai. Zeus, sabendo de tudo o que ia acontecer, ignorou os gritou da filha. A carruagem adentrou pela fenda na Terra, carregando Hades e Perséfone para o mundo inferior. Depois disso, a terra simplesmente se fechou como se nada tivesse acontecido. E Perséfone desconsolada lentamente perecia no mundo inferior.

No plano psíquico, o reino de Hades é o reino do inconsciente, dos sonhos, das memórias, dos pensamentos e dos sentimentos reprimidos, o reino de tudo o que é doloroso, vergonhoso ou inaceitável aos outros, e que por isso não pode (ou não deve) ser visível no mundo exterior. É para lá que se dirigem os nossos anseios não concretizados, os nossos traumas, e as possibilidades de todas as escolhas de vida que abandonamos ainda nos primeiros esboços.

Existem várias situações que podem nos levar a entrar em contato com esse mundo inferior. Situações de perda que podem ser vividas por nós como se fosse uma morte: a morte de um relacionamento, de um projeto de vida, de esperanças e expectativas de futuro, de uma amizade ou relação significativa , a morte de um ente querido, ou até mesmo, a possibilidade da nossa própria morte. O estado de vazio interior ou carência permanente é também descrito como um estado de perda: a perda de si mesma.

Algumas mulheres (e homens) podem entrar voluntariamente em contato com o mundo inferior por um breve período, quando insatisfeitas com a vida, fazem uma revisão de suas antigas escolhas e propósitos, e decidem dar uma guinada radical nos rumos de sua história. No entanto, a maior parte de nós entra em contato com o mundo inferior de forma involuntária: quando nos tornamos vítimas de alguém ou de uma situação opressora, mais ou menos sufocante.

Quem está sujeita a ser vítima de um "rapto"? Todas nós. Inúmeras mulheres com as mais diversas dificuldades na vida. Podem ser mulheres que se sentiram desamparadas em um momento crucial de suas vidas, mulheres que experimentaram a falta de apoio de pessoas queridas, que experimentaram sentimentos de abandono ou rejeição. Podem ser mulheres que tiveram seus anseios negligenciados, seus sonhos amputados pelas circunstâncias da vida, ou até mesmo mulheres que foram vitimadas pela violência, e experimentaram momentos de terror e abandono. Essas mulheres encontraram o mundo inferior ao entrar em desespero, apatia ou em um estado de entorpecimento frio e isolado.

Percebemos a "Perséfone raptada" observando a mulher resignada e apática que parece existir longe do mundo real de cores vivas e nuances fortes, parece a mulher distante do mundo dos vivos, distante da energia vital de tudo aquilo que vive, desabrocha e cresce. Percebemos também a "Perséfone raptada" na mulher profundamente ansiosa e angustiada, que padece fisica e emocionalmente de uma diversidade de preocupações e doenças psicossomáticas.

A entrada no reino inferior é sentida pela mulher como um sequestro: de uma forma muito violenta e arrebatadora, seja através de um (ou mais) atos de violência física ou psicológica, ou através de uma súbita perda de energia decorrente de insatisfações constantes, negligências, omissões, maus tratos, desamparo, cerceamento, repressão , críticas destrutivas, perda de valorização e apoio emocional, carência de uma relação significativa, ou em muitos casos, como produto de uma educação severamente rígida e punitiva. Qualquer uma destas coisas, ou o conjunto delas, podem manter a mulher "em cativeiro", desconectada dos outros e, principalmente, de si mesma.

Um dos aspectos mais terríveis do mito, é que o rapto de Perséfone teve a aprovação de Zeus, seu próprio pai, e não pode ser evitada pela sua mãe. Na vida real, a aprovação do pai pode ser representada pela figura de um pai repressivo ou violento, distante emocionalmente, cujas entradas na vida da filha são feitas apenas para ditar regras e punir comportamentos. É o pai incapaz de amar incondicionalmente, de fornecer apoio emocional e ensinamentos importantes acerca da vida e das pessoas, ou até mesmo é incapaz de aceitar a personalidade espontânea e natural da filha. É o pai que se frustra quando ela tem sonhos e vida própria e estes não correspondem às suas expectativas de pai. Esse pai pode transmitir consciente ou inconscientemente à filha a mensagem clara de que ela é um "erro", um desapontamento para ele, de que ela não é a filha que ele quis ter.

A mãe pode ser uma figura que a ama mas não tem forças para se impor ao pai. Pode ser uma mulher submissa, negligente ou ciumenta. Contextos familiares desse tipo podem funcionar como uma espécie de "aprovação" para o "rapto". Não se sentindo aceita e acolhida, a jovem pode, movida por angústia e desespero, ter muita pressa na hora de se envolver com alguém, não saber avaliar o caráter, impor limites, pode ser atraída para um relacionamento pessoal ou profissional abusivo, uma profissão ou carreira vazia de significado, ou mesmo um relacionamento infeliz, problemático ou monótono que terminará por "raptar" a sua vivacidade.

O "rapto" é uma imagem muito rica e esclarecedora para a depressão. Perséfone, que foi prisioneira no mundo inferior, poderia ser clinicamente diagnosticada como deprimida. Não fazia nada além de ficar sentada, via a seu redor um mundo cinzento e sem vida, e achava que nunca mais veria a luz do dia ou seria capaz de sentir algum prazer.

As mulheres diagnosticadas com depressão vivem como Perséfone: sentem-se deslocadas e distantes de tudo o que costumava dar sentido às suas vidas: pessoas, lugares, relacionamentos, atividades prazerosas, projetos de vida. Suas vidas ficam tingidas de um cinzento turvo e frio. É como se também tivessem sido "raptadas". Nesse caso, elas tiveram raptadas a sua vivacidade, a sua energia, sua capacidade de sentir prazer, sua habilidade de raciocinar com clareza, sua criatividade, sua força para resistir aos golpes da vida, e sua motivação para se dedicar a projetos pessoais.

Nem toda a depressão é decorrente de um ou mais atos de violência. O rapto pode ser representado pelo esgotamento emocional que a mulher sente com as coisas do dia-a-dia. Contudo, esse esgotamente pode ter um significado pessoal muito profundo para ela, e ela precisa fazer um mergulho no seu interior para descobrir o que está drenando suas forças, quem (ou que) está desempenhando o papel de "raptor" na sua vida.

O raptor na psique feminina

Um número significativo de mulheres que se depararam com situações inferiorizantes, humilhantes ou abusivas na vida adulta e acabaram deprimidas como Perséfone, sofreram uma espécie de "rapto". Podem ser relações que não a preenchiam emocionalmente, onde estavam presentes descasos cotidianos às suas demandas e sentimentos, até mesmo casos mais graves onde estavam presentes abusos físicos, sexuais e psicológicos.

E o que é ainda mais surpreendente nesses casos é que muitas delas já possuíam introjetadas na sua psique a imagem de um raptor, muitos anos antes de se envolverem em qualquer relacionamento infeliz ou abusivo.

O raptor da psique feminina pode ser a imagem de uma figura paterna que "engole" a psique da sua mãe, mas de quem a filha precisa e busca desesperadamente aprovação e acolhimento. O raptor pode surgir também sob a forma de pesadelos no início da adolescência, como um estranho que a persegue, sequestra ou violenta. Esses pesadelos são "avisos" importantes do insconciente que tenta informar à jovem mulher de que existe algum aspecto da sua vida emocional ou da sua personalidade que está sendo raptada.

Meninas que foram educadas apartadas de relações sociais com pessoas diferentes (por motivos culturais ou religiosos da família), meninas que foram severa e desproporcionalmente castigadas ainda muito jovens por seus pais por razões que não compreendiam, tendem a desenvolver em seu inconsciente uma imagem de um "raptor", alguém que vai sequestrá-la daquela situação. É comum que estas meninas tenham sonhos envolvendo perseguição, sequestro, estupro ou espancamento, abusos que ferem sua integridade física e psíquica.

Esses pesadelos, na maior parte das vezes, são vistos como "sonhos ruins" e são simplesmente ignorados. A não ser que os relatem para alguém mais conhecedor do assunto, essas meninas jamais tomam conhecimento de que esses pesadelos representam aspectos emocionais ou experiências de vida que estão sendo "sequestrados": sua espontaneidade inocente, sua sensualidade corporal, sua sexualidade, sua liberdade de fazer escolhas e de responder por elas de forma justa e equilibrada.

No entanto, se a menina na época em que brincava com amiguinhos imaginários, não conseguiu desenvolver na sua psique, por falha dos pais, imagens internas de pai e mãe capazes de lhe fornecerem proteção, orientação e amparo, ou se esses pais foram vistos com desconfiança, como os "agentes da violência", causadores diretos das suas angústias, esses amiguinhos imaginários da infância podem retornar mais tarde em seus sonhos, sob outra forma, mais violenta e agressiva, podem invadir a psique da menina adolescente, como uma espécie de "resgate brutal" do contexto em que vivem.

Na sua forma mais inocente, as meninas passam a idealizar o relacionamento com o homem perfeito que a venha resgatar da vida que a cerceia. No entanto, quanto mais graves forem os conflitos na sua psique, quanto mais inóspito for sentido o ambiente familiar, esse "salvador" imaginário adquire contornos distorcidos.

Torna-se possível até mesmo que esse "salvador" tenha aparecido nos seus sonhos através de um ato inicial de violência: o sonho perturbador de um desconhecido que invade o seu quarto no meio da noite e a sequestra, um homem mais velho que a mantenha em cativeiro, e que com o passar do tempo, se apaixona por ela, fornecendo-lhe a atenção, a proteção e a segurança que ela não sentiu no ambiente familiar, nos primeiros anos de vida. Em troca disso, ela paga um preço altíssimo: o rapto de sua liberdade, de sua juventude, de sua vivacidade, de sua inocência, sensualidade ou sexualidade. Está configurada assim, na psique da jovem mulher, a figura do "raptor": alguém que sequestra seus modos de ser e estar no mundo, seus jeitos e gestos, sua alegria, sua espontaneidade, sua inocência, em troca da segurança de uma vida morna, insípida, reclusa e sem brilho.

Essa mulher sente suas possibilidades de vida "sequestradas" no dia-a-dia, sente a falta de prazer, mas vive resignada como Perséfone: como uma sombra do que já foi um dia. A "menina sequestrada" que hoje é adulta não precisa ser necessariamente vítima de violência doméstica, pode ser apenas uma Perséfone apagada, pálida, percebida por amigos e familiares como alguém triste , porém resignada, que acha que vida de mulher é "assim mesmo": um compêndio longo de responsabilidades, culpas e infelicidades.

E um fator extremamente agravante é a possibilidade que mulher tenha tido, quando ainda menina, introjetada em sua vida psíquica interior, a figura de um raptor como algo que resultou benéfico ou ambivalente: alguém que lhe proporciona uma existência ruim, mas ao mesmo tempo que a salva de uma vida ainda pior. É o caso da menina que está profundamente desesperada, que foge de uma vida insuportável e aceita uma vida ruim, sem saber que isso representa a fuga de um cativeiro para outro.

Essa mulher adulta pode até acreditar que tenha feito uma boa escolha ao ter abandonado a severidade familiar mesmo que tenha de se conformar com uma relação morna, insatisfatória e apática, seguindo a lógica inconsciente: "não estou feliz, mas pelo menos não estou sendo sufocada, torturada ou reprimida! Fazer o que? Não se pode ter tudo na vida, afinal não existe almoço grátis".

Essa mulher, no entanto, estará sujeita a crises recorrentes de depressão apática, cujas causas ela pode até mesmo desconhecer. Estas são mulheres que retornarão frequentemente aos domínios de Hades, seu raptor inconsciente, até que consigam compreender as razões mais profundas de suas angústias, seus temores e necessidades, e principalmente até que consigam dar a atenção devida a essas emoções, que durante muito tempo foram relegadas ao mundo das sombras, ao mundo daquilo que não deve ser dito, mostrado e nem mesmo pensado.

Meu raptor

Essa teoria foi uma das descobertas mais significativas da minha vida: compreendi muitos dos meus dilemas na velocidade de um raio - e os senti precisamente como um um soco no estômago!

Para muitas mulheres, a imagem desse raptor não é bem clara, talvez porque hoje já não se lembrem de seus sonhos e pesadelos adolescentes, já que naquele momento não puderam ou souberam lhes dar a importância devida. Eu tive na minha psique a figura de um "raptor" muito bem desenhada e consolidada. Não foi como a figura bonita e idealizada de um príncipe encantado que aparece nos sonhos pré-adolescentes de muitas meninas que someçam a sonhar com o amor de suas vidas (figura esta que normalmente é validada por muitas comédias românticas e contos da Disney).

Foi mais como uma versão distorcida dessa fábula. Também não foram pesadelos eventuais e esparsos de raptos ou violência que me avisaram sobre os perigos do mundo. Não foi nada que eu pudesse ou conseguisse ignorar como apenas mais um pesadelo. Foram verdadeiros tormentos que eu não podia partilhar com ninguém: sonhos repetidos durante anos da minha adolescência, que adquiriam contornos e enredos cada vez mais complexos, elaborados com uma riqueza de detalhes que acompanhava bem de perto o meu crescimento, desenvolvimento e amadurecimento ao longo daqueles anos.

Não tive qualquer dificuldade em compreender a metáfora do raptor devido à sua familiaridade. No meu universo onírico, esses sonhos começavam efetivamente com um rapto, para irem se tornando enredos cada vez mais complexos que despertavam emoções fortes e contraditórias. A imagem deste "raptor onírico " despertava muita confusão e ambivalência. Um invasor que através de um ato original violento e desrespeitoso adquiria feições protetoras com o passar do tempo, manifestando cada vez mais atitudes afetuosas e amorosas, respondendo nos meus sonhos aos meus anseios mais profundos, conforme eu ia crescendo e me conscientizando desses anseios na vida real.

O maior perigo da figura deste raptor para a jovem mulher é o enredo inconsciente de que pode advir algo de bom (respeito, amor e companheirismo) de um ato original de captura, sequestro ou violência.

Sentimentos contraditórios

Eu nunca me permiti acreditar nessas fantasias porque elas me perturbavam muito: me causavam um misto de amor e ódio, e me colocavam na sinuca de ter de escolher entre viver e sobreviver. No entanto, algumas mulheres que talvez não tiveram um "raptor" tão claro e recorrente como o meu, realmente entraram em relacionamentos abusivos ou áridos emocionalmente, buscando justificativar (para si mesmas e para os outros) o comportamento de seus parceiros, parecendo serem movidas por uma fé inabalável de que um dia eles verão o seu valor e se tornarão respeitosos, carinhosos e amorosos para com elas.

A figura do raptor surgida na psique da jovem mulher tem uma grande parcela de responsabilidade no comportamento excessivamente tolerante e condescendente que esta mulher poderá ter no futuro caso se depare com um parceiro pouco ou nada amoroso, um chefe autoritário ou algum eventual abusador na sua vida.

Isso não quer dizer que mulheres que não sejam vítimas de abuso fisico e psicológico estejam imunes aos efeitos de um "raptor" que porventura habite em sua psique. O raptor surge nos momentos de muita angústia na vida da jovem mulher, quando ela ainda não tem maturidade ou capacidade de encontrar uma solução apropriada. Uma adolescente é alguém que ainda depende de seus pais, e pode se sentir vítima de maus tratos, negligência ou violência, mas que ainda depende deles para viver. É alguém que tem raiva de seus comportamentos enquanto nutre amor por eles, alguém que os ama e odeia, odeia a violência, precisa fugir, mas depende deles com a própria vida.

O "raptor" pode ser visto até mesmo como uma espécie de protetor, um guardião autoritário (às vezes, um homem mais velho), porém amoroso, uma figura que se importa com ela, que a protege quando ela não encontra apoio emocional em suas relações familiares. E se as dificuldades na vida dessa menina permanecem por muito tempo, mais força em sua psique inconciente esse "raptor" adquire. A ausência de relacionamentos emocionais significativos na vida real empurra a mulher cada vez mais para as garras de um raptor inconsciente, que é uma figura capaz de um ato violento (o rapto) e que ao mesmo tempo desenvolve uma profunda compreensão e respeito pelo universo interior dessa jovem, respondendo favoravelmente em seus sonhos, aos seus anseios emocionais, ainda que cobre um preço muito caro por isso: sua liberdade.

A "Perséfone raptada" da vida real é uma mulher que em prol de estabelecer conexões profundas e significativas com alguém, é capaz de suportar altos preços, fazer grandes sacrifícios, suportar desrespeitos da família do marido (ou dele mesmo) , criar sozinha filhos problemáticos do casamento anterior do seu parceiro, suportar sua aridez emocional, sua falta de apoio, afeto e compreensão, abandonar os estudos ou o trabalho apenas para satisfazê-lo, abandonar seus hobbies, seus prazeres, seus relacionamentos com amigos e familiares, por que ele não gosta, como se isso fosse um "preço natural" de um relacionamento amoroso. Ela permanece em uma relação insatisfatória, onde pode não haver graves confrontos , mas onde não é feliz de jeito nenhum. Ela se sente enraizada nessa relação porque de alguma forma, essa consegue ser menos pior do que a incompreensão, o desrespeito, a opressão ou a violência em sua família de origem.

Visualize a Perséfone da vida real: a mulher que assume encargos e responsabilidades além daqueles que consegue suportar, muito além de quaisquer limites saudáveis, que possui dificuldades em dizer "não" ou estabelecer limites razoáveis às atitudes invasivas de outras pessoas, que deixa seus planos e objetivos de lado em prol dos objetivos dos outros, que priva-se da liberdade por alguém ou por uma relação, que deixa de agir em prol dos seus interesses e de defender a sua liberdade individual por absoluta exaustão de lutar.

Essa é uma situação que passa bem longe do velho e conhecido clichê da mulher que tem dificuldades em dizer "não" para tentar agradar os outros e obter aprovação. A "Perséfone raptada" da vida real é a mulher que lutou tanto até ter suas forças completamente exauridas, mergulhou em profunda depressão, e se tornou apenas uma sombra pálida do que já foi um dia. Você conhece alguém assim?

Aspectos positivos do mundo inferior

Ter conhecido o mundo inferior do Hades, assim como ter vivido uma depressão profunda ou crônica, tem seus aspectos positivos. A depressão coloca a pessoa em um contato nu e cru com seus anseios, seus temores, angústias e insatisfações, com seus projetos abandonados e desejos reprimidos. É um estagio doloroso, repleto sentimentos terríveis e contraditórios que tem o potencial de propiciar à mulher deprimida a consciência realista e brutal de ter se perdido de si mesma, de ter permitido inconscientemente os abusos e desrespeitos sofridos.

Contudo, é extremamente perturbador e pode vir (como normalmente vem) carregado de sentimentos de culpa e constrangimento. Por isso, buscar ajuda é tão importante. Uma boa ajuda e bem direcionada é aquela que permite à mulher deprimida reverter esse mau momento a seu favor, afastando os inúteis sentimentos de culpa, e trazendo para si a tarefa importante de "resgatar a sua Perséfone": identificar o cativeiro emocional , identificar e desmarcarar o "raptor" onírico, e resgatar a si mesma de volta ao mundo dos vivos.

Pode procurar ajuda familiar, de uma amizade importante, de alguém que consiga compreender o universo da mulher deprimida sem julgá-la, e ajudá-la nesse processo de "saída do cativeiro" psíquico. Às vezes, essa pessoa pode ser um familiar que se dá conta da trágica situação, se mobiliza porque possui um genuíno interesse em ajudá-la.

No entanto, em casos de depressão moderada e crônica, é provavel que essa mulher já tenha sofrido perdas significativas nos seus relacionamentos, nos quais famílias e amigos se distanciaram ou perderam a conexão com ela, e ela não tenha mais qualquer familiaridade com eles, ou não os veja como pessoas capazes de compreendê-la. Não sejamos ingênuos: algumas famílias ainda não conseguem compreender a depressão, não são empáticas (não conseguem se colocar no lugar do outro), ou rejeitam tanto sua "ovelha negra" que não possuem vontade ou disposição em auxiliá-la.

Na maioria dos casos, quando a família percebe a depressão, normalmente se preocupa e tem genuinamente o interesse em auxiliar a mulher deprimida, pode ocorrer também que as distâncias emocionais já se estabeleceram tão profundamente a ponto de prejudicar a comunicação, e o interesse em ajudar não surtir bons efeitos. Tratam-se de mulheres que foram lentamente se deprimindo e se isolando, até se perceberem tão distanciadas dos outros, tão pouco familiares, que já não partilham mais das mesmas crenças e valores, mulheres que se sentem como "peixes fora d'água". Nesse contexto, as dificuldades de comunicação podem dar lugar a mais conflitos que só agravam o quadro, por isso, buscar a ajuda profissional pode ser indispensável.

O rapto de Perséfone para o mundo das sombras assim como a depressão feminina tem um componente positivo que não pode ser ignorado. Ele contém um material informativo muito rico a respeito da própria natureza interior da mulher, tornando conscientes as possíveis respostas aos seus anseios mais profundos. Pode trazer uma luz importante aos potenciais que ela possui , para que estes sejam trabalhados e desenvolvidos, possibilitando que ela saia do mundo das sombras, com a descoberta de verdadeiros tesouros que estavam ali o tempo todo, enterrados nas profundezas da sua alma, e que só precisavam ser trazidos à luz.

Isso tudo sem mencionar que as mulheres que encontraram o "caminho de volta" a si mesmas, que já trilharam este caminho ou ainda estão trilhando (como o meu caso), já puderam perceber que se tornaram mais fortes, mais resilientes, mais livres, mais autênticas e mais felizes. Aprenderam ou estão aprendendo a mais importante lição das suas vidas: a de respeitar os seus próprios limites. Elas aprenderam a ouvir os seus sonhos e instintos, aprenderam a ouvir os sinais do seu corpo, e aprenderam que o mundo inferior apesar de ser um local muito triste, pode ter lhes ensinado algo muito importante: que de vez em quando, ela será bem vinda para retornar lá, por breves momentos, voluntariamente, sempre que estiver passando por grandes dificuldades e precisar reavaliar a sua vida e tomar novos rumos.

Ela aprenderá a dar ouvidos aos sonhos, prestar atenção aos sinais de conforto e desconforto do seu corpo, aprenderá a se recolher no interior do seu mundo inconsciente, psicológico, espiritual e emocional, aprenderá a retornar de lá com respostas eficientes para seus dilemas, mais madura, mais forte, mais produtiva, mais poderosa, mais vivaz, mais criativa, mais autoconfiante, mais saudável e mais feliz.

A ironia mais surpreendente da vida dessa mulher é que quanto mais tempo permaneceu no mundo inferior, quanto mais graves e profundas foram as repercussões desse "rapto", quanto mais sentiu os efeitos da sua depressão, menores parecem os problemas da vida quando ela encontra o caminho de volta a si mesma. Trata-se de uma mulher que não terá mais sérios problemas de autoconfiança ou autoestima, que aprendeu que seus maiores opositores eram seus fantasmas interiores, e que eles podem ter se tornado grandes mestres na arte de ensinar a viver. É uma mulher que tendo sido vítima capturada, revoltou-se. Pediu demissão do cargo de vítima para se tornar a heroína de sua própria história, alguém digna de uma bela biografia: uma fênix renascida das cinzas.

É alguém que já esteve em cativeiro, no inverno da alma, que já conhece muito bem o lado sombrio da vida, que carrega luz própria sempre que precisa enxergar cantos escuros e desenterrar tesouros escondidos. É alguém que está de coração aberto para vida, muito mais corajosa e muito mais realizada. É alguém que segue tranquila e vigilante, atenta e apaziguada, sem medo de se perder porque agora conhece exatamente trilhar o caminho de volta para casa, de volta para si mesma, sempre que precisar.

Espero, do fundo do meu coração, que o meu depoimento e o meu aprendizado possam ajudá-la na sua trajetória! ***

#depressão #deprimida #mitologia #psicologia #psique #feminina #natureza #cultura

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