O nascimento de uma bruxa (ou O parto de si da mulheruniverso)


Menina cerceada, pés que correm, pés pesados e, que por fim, mal se movem. Braços que sem espaço convertem o corpo em tronco. Ombros fechados sobre si mesmos protegem carne frágil. É carne que existe em carne viva. Cresce mulher, cresce dúvida: "Onde me foram parar as omoplatas, que de tão pequenas ainda são de menina, que de tão fechadas eu não as enxergo? Onde estão os vestígios evolutivos de nossas asas ancestrais? Sou de outra espécie, ou de outro mundo? Há equivalente meu no multiverso?" Se um dia menina voou, já não lembra. Nem cresceram suas raízes, mas teve as asas amarradas. Longe da terra, perdeu sua força. Longe dos céus, perdeu sua fé Longe do ar, o movimento Longe da água, a fluidez. E enrijeceu. Seus pés já não dançavam. Sua voz já não cantava, que de tão baixa e tão pequena fez-se muda, fez silêncio. O sorriso contido feneceu. E precisando sorrir, reproduziu movimentos. No espelho, já não reconhecia a própria imagem. Não viu mais que o reflexo da parede atrás de si. Apartada do feminino, do infantil, do selvagem, do humano, do corpóreo, do sensível, quis ter nascido menino, pois existindo menina, ardia-lhe, queimava-lhe e e sangrava-lhe o existir. Apartada do mundo, da terra, da lua, da energia ancestral Cai sobre si. Contrai-se. E da imensa contração sobre si, fez-se ponto. E ainda mais reduzida de si, fez-se átomo. Energia concentrada em um ponto, comprimida em volume, potencializada em sua força. Violência. Implosão. Morte psíquica. Escuro. Vazio silencioso. Desceu ao Hades, como sombra do que já fora um dia. Esqueceu-se de si, do mundo e fora esquecida. E seu vazio inóspito que exigia expansão, a fez converter energia implosiva em explosão. Contração e expulsão, dor sem localização em um parto atemporal. Fez solitária, parto de si. Como o nada, que da energia, faz matéria e a anima. Toma posse de seu corpo e o expande. Sem raízes, passo a passo a passear, retirando da terra energia, convertendo-a em movimento, num fluxo errático, errante e expansivo onde pés e terra são um só. Nos membros adormecidos, um formigamento quente. Passos a esmo, passos que correm, passos que desenham pegadas no chão Passos que delineiam movimentos, passos que tiram dos pés uma dança estranha: a dolorosa dança do nascimento. "Teria tido o Universo um parto de si com tal imensa dor? Ou se fez em violência tanto quanto se fez de amor?" Como universo que do nada explode em expansão , dos braços colados ao corpo, faz-se nova explosão, que de tronco, em galhos, precisam tornar-se asas, e criar das pequenas omoplatas, força para sustentar toda a matéria, produzir o contínuo movimento, e prosseguir a insondável expansão. Conectar em si os elementos, integrar a si novos universos, novas sensibilidades, libertar a energia represada, e transmutar a dor em criação da mulher-menina, mulher-jovem, mulher-selvagem, mulher-morta, mulher-nada, mulher-vida, mulher-velha, mulher-sábia, mulher-guia, mulher-bruxa, mulheruniverso. *****

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