Simplesmente Complicada


Sou uma pessoa difícil de se conquistar. Não me apaixono facilmente. Sou assim há tantos anos, que é difícil precisar quando comecei a me tornar complicada.

Acho que foi por volta dos 13 anos que parei de idealizar o "grande amor da minha vida". Naquela época, eu já tinha percebido que a beleza física de um rapaz não era suficiente para me manter interessada por mais de dez minutos na sua conversa. Nem mesmo conseguia ficar lisonjeada ou envaidecida com seu interesse por mim. Simplesmente não sentia nada.

Imagine a expectativa que eu colocava nos ombros do rapaz! Ele teria de se mostrar interessante nos primeiros dez minutos de conversa, sob pena de eu não conseguir me segurar e começar a bocejar.

Percebi que sair para conhecer alguém não daria muito certo no meu caso: simplesmente não era uma opção no cardápio "Mil Maneiras de Encontrar o Amor da Sua Vida". Flertar com alguém, decidir conversar, selecionar o assunto, tentar impressionar... Sentia uma estafa só de pensar. Esses "joguinhos de sedução" nunca me atraíram.

Gosto de espontaneidades, de ausência de expectativas, da rotina do dia-a-dia, das minúsculas e significativas surpresas que a gente tem quando convive com alguém com quem não tem um prévio interesse em conquistar ou ser conquistado.

Conclusão lógica: para me apaixonar por alguém, eu precisaria conviver!

Que lugares frequentamos? Com quem convivemos? Se você vai de casa para o trabalho e do trabalho para casa, já deve ter percebido que isso dificulta um bocado as coisas. Apaixonar-se por um colega de trabalho não é exatamente recomendável, embora muitas histórias de amor bem sucedidas começaram assim.

Eu não me apaixono por um corpo bonito, ou corte de cabelo, ou roupa da moda (ou grife), ou carro, ou cargo, ou conta bancária, ou status. Homens que investem muita energia tentando ser bem sucedidos como vantagem competitiva na conquista de uma mulher, costumam me atrair tanto quanto a aventura de escolher a cor de um balde, de um pote plástico ou vassoura. E assim, acidentalmente, eu já destruo uma boa parcela dos mitos masculinos sobre sedução e conquista.

Eu nem mesmo consigo me interessar pela conversa de um homem quando ele está com a "função sedução" ativada. Devo ter algum problema grave de dispersão: um cara teoricamente lindo na minha frente, falando e falando, e eu estou reproduzindo na minha cabeça alguma música chiclete que está tocando como som ambiente em algum boteco situado num raio de dois quilômetros quadrados. É um verdadeiro desastre!

Eu não disse que era complicada? Pois é, não menti.

Eu me apaixono pela conversa desinteressada, pelo arsenal de bobagens que me fazem rir e divagar, pela ironia inteligente que surge no momento certo, pelas idiossincrasias totalmente "non sense" do homem em questão. Eu me apaixono pela cumplicidade criminosa de um olhar transversal e de riso sarcástico frente às idiossincrasias alheias.

Eu me apaixono pela "desinibição cognitiva": pela disposição do cara em em pensar e falar de qualquer assunto sem prévias e preconceituosas restrições.

Eu me apaixono pela pessoa que entra nos meus assuntos e deixa o papo fluir mesmo não fazendo a menor ideia do que estou falando.

Eu me apaixono por tudo aquilo que eu observo em um homem quando ele não está olhando: desde suas mãos carregando pastas e sacolas, até o tropeço diário em uma mesma pedra que está no mesmo lugar todos os dias. Eu sou aquela que, longe de seu olhar, remove a pedra para ver quanto tempo ele demora a perceber que não está mais tropeçando nela.

Eu me apaixono pelas desculpas que ele inventa para me ligar fingindo desinteresse por não ter certeza se meu sentimento é recíproco. Eu me apaixono ainda mais quando ele cansa da insegurança e, em um acesso de ousadia, liga sem ter desculpa nenhuma. Eu me apaixono quando ele está decidido a superar seus bloqueios por mim .

Eu me apaixono pelas linhas de expressão, pelas lacunas na barba, pelo olhar desconfiado, eu me apaixono até mesmo por um grau moderado de rabugice. Eu sou aquela que diz ou faz alguma coisa totalmente non sense só para ver irromper uma gargalhada esdrúxula no meio das reclamações.

Eu me apaixono pelas assimetrias (nem tão) sutis dos pés, das mãos, do rosto, joelhos... Eu me apaixono às vezes justamente por aquilo que ele não gosta em si mesmo: uma falha na sombrancelha, um pé diferente do outro, um jeito esquisito de fazer alguma coisa, uma autocrítica meio rigorosa demais, um problema nas costas... Todas essas "coisinhas sem importância" compõem um conjunto único, um tesouro exclusivo. E eu adoro exclusividade!

Depois que eu me apaixono pelo supostamente feio, ninguém consegue me convencer que o destinatário do meu amor não é estupidamente lindo! Ou assustadoramente sexy...

Fico absolutamente encantada quando ao invés de comprar algum presente-padrão caro, ele tenta expor o que pensa e sente. Tenta escrever uma frase ou rascunhar um poema, esboçar um desenho ou enviar uma mensagem carinhosa -ou mesmo boba, sem muitas revisões, além do básico para se fazer entender, desde que seja espontânea.

Não preciso dizer que o que é espontâneo, é sincero. Toda a mentira requer algum grau de elaboração.

Por que eu amo a espontaneidade? Porque é nela que reside a essência de alguém: sua alma e personalidade. A espontaneidade reside fora das convenções sociais, das expectativas alheias, das projeções emocionais, dos estereótipos limitantes que dizem como devem se comportar homens e mulheres.

Seguindo essa lógica, você poderia se perguntar: então os extrovertidos teriam mais chances? Não é assim tão simples.

Eu me apaixono perdidamente pela coragem de um introvertido: a pequena ousadia corajosa de um introvertido é uma incalculável oferenda ao amor de uma mulher.

É por tudo isso que eu sou tão complicada: porque esse grau de simplicidade é extremamente raro.

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#amor #paixão #relacionamento #sedução #comportamento #introvertido #tímido #convivência

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