A tentação da serpente e a inferiorização do feminino


Você já parou pra pensar por que a serpente simboliza a tentação do mal no mito bíblico do Jardim do Éden? Será que foi sempre assim?

Há fortes indícios arqueológicos de que as primeiras divindades adoradas foram femininas. Vários povos em várias partes do mundo adoraram uma Grande Deusa-Mãe, criadora do universo, geradora de todas as formas de vida, signo da fertilidade, da agricultura, da natureza e da cultura, da linguagem e da escrita. Ela aparece sob variadas denominações: Ishtar, Inanna, Kwan-Yin, Gaia (a mãe terra), entre outras.

Em várias destas mitologias, representações simbólicas da Grande Mãe apareceram sob a forma de SERPENTE: uma serpente divina ou mágica. Desde a era neolítica e durante a era do bronze, a serpente era divinizada na Europa, no Egito e no Oriente, devido à sua vitalidade e ao seu rejuvenescimento periódico. Ela era honrada pelas suas habilidades de regeneração (a serpente se regenera periodicamente ao trocar de pele) que representavam simbolicamente vida, morte e renascimento.

A serpente era o símbolo do ciclo da vida. Para estes povos matrifocais (focalizados na figura feminina), a serpente era um ser sagrado, tão benevolente quanto austero, que representava as belezas e os perigos da vida: a primeira ligação conhecida entre o mundo divino e o mundo dos mortos. Por sua natureza cíclica, era associada também aos ciclos lunares (que regulavam os ciclos menstruais e reprodutivos das mulheres antes dos métodos anticoncepcionais) , aos ciclos vegetais na agricultura (de ascensão, declínio, repouso e regeneração).

Em algumas culturas, a Grande Deusa era simbolizada por peixes que nadam em águas profundas e escuras (os mistérios da vida), por pássaros que alçam vôos nos céus (o aspecto divino) e por felinos por seu instinto aguçado, porque se acreditava que eles era o elo de comunicação entre o mundos dos vivos e dos mortos . Todas esses animais representavam características necessárias à sobrevivência e aspectos importantes da cultura.

Onde podemos visualizar os vestígios da veneração à Deusa-Mãe?

Em várias celebrações pré-cristãs, a natureza intocada era um templo natural de adoração. Ritos religiosos de celebração e adoração eram realizados em pontos altos de montanhas, às margens dos rios, cachoeiras ou em locais que possuíam algum valor simbólico. Posteriormente, esses mesmos locais foram tomados e absorvidos novos cultos, por templos de adoração aos deuses pagãos gregos, romanos, egípcios, entre outros , e por fim, para a construção de templos, igrejas, mosteiros e conventos, e locais para celebração de cultos patriarcais de tradições judaico-cristãs e maometanas. À essa absorção de locais simbólicos, datas significativas, ritos, símbolos e significados de uma cultura religiosa por outra dá-se o nome de sincretismo religioso.

Diferente do que pensamos, essas tradições antigas não desapareceram completamente. Elas precisaram se modificar para se adaptar a novos contextos históricos (muitas vezes, seus adeptos tiveram de se ocultar em nome da sobrevivência). Os ritos de celebração à vida dedicados à Grande Deusa eram praticadas por mulheres que durante o período medieval ficaram conhecidas como "bruxas".

As bruxas eram mulheres que cultuavam a deusa ancestral, o sagrado feminino, o poder da vida e da natureza em celebrações realizadas na natureza selvagem, onde não havia nenhuma hierarquia sacerdotal. Elas constituiram um dos principais elementos dissonantes da cultura patriarcal. Os felinos , associados a elas, também foram perseguidos e mortos. Quem nunca ouviu falar que gato preto dá azar? Origina-se daí a expressão. Azar pela ligação com o mundo dos mortos, pelo medo da morte, e sobretudo por trazer consigo simbolicamente o vestígio de épocas em que o signo feminino era respeitado, adorado e celebrado.

O rebaixamento da serpente

O rebaixamento da serpente iniciou ainda nas culturas pagãs, por exemplo no mito de Apolo: Apolo (deus do sol, símbolo de uma concepção de história linear e progressiva) matou a serpente Píton, animal poderoso que nasceu do lodo primordial, o lodo que restou na terra após o Dilúvio (o mito do Dilúvio é muito anterior à narrativa bíblica). No mito de Apolo, Píton causava medo pois, nascendo de grande tragédia, tinha o poder de levar a morte pelos lugares onde arrastava seu corpo. Ela teria tentado matar Apolo, sua irmã e sua mãe, e coube a ele, o masculino-irmão, proteger a família e derrotar a serpente. A morte da serpente simbolizava a destruição das forças matrifocais, geocêntricas (culto da mãe terra), da centralidade dos ciclos lunares que orientavam uma concepção cíclica da história.

Em um primeiro momento, nos cultos mais antigos, a serpente é o próprio poder gerador feminino, a representação da Grande Deusa. No mito grego de Apolo, ela é inimiga da família. No mito da deusa grega Hera, a serpente passou a ser um instrumento, uma ferramenta do poder destruidor feminino manipulado pelas mulheres. Hera teria enviado duas serpentes para matar Héracles (Hércules), fruto de uma traição de seu marido Zeus com uma mulher mortal. Já a deusa grega Atenas (deusa da sabedoria) tinha no seu templo uma serpente viva, e em algumas de suas representações, trazia serpentes entrelaçadas em seu escudo.

Atenas, na mitologia grega, é filha apenas de seu pai Zeus. Zeus havia engolido Métis enquanto ela ainda estava grávida de Atenas, e deu a luz ele mesmo à sua filha. A existência de sua mãe Métis foi apagada por completo de sua história. E Atenas, que já nasceu adulta e ligada ao masculino, tornou-se a deusa defensora do patriarcado, protetora dos heróis, que aparece ajudando Aquiles e Odisseu, respectivamente, na Ilíada e na Odisséia. Nas suas representações mais tardias, ela aparece pisando na cabeça da serpente, subjugando assim o poder feminino.

O símbolo da serpente ainda sobreviveu durante séculos às tentativas dos sacerdotes apolíneos de erradicar o antigo culto à sacralidade feminina.

Serpente: do sagrado feminino à inimiga da mulher

Nas culturas judaico-cristãs e maometanas, a serpente e, por conseguinte, os valores matrifocais acabaram por ser definitivamente sobrepujados.

No mito da queda do Jardim do Éden, a serpente já não mais representa o poder feminino. Ela é a tentação do mal, inimiga da mulher, do homem e da sociedade patriarcal. Eva não deveria ter lhe dado ouvidos. Porém, influenciada ainda por tradições ancestrais, Eva se aproxima da serpente (o sagrado feminino original), e isso causa a queda do paraíso.

Nas culturas patriarcais, a serpente não é mais o feminino sagrado. Não é nem mesmo instrumento, ferramenta ou arma do poder feminino. Ela tornou-se o mal, a tentação do mal, inimiga do homem, da mulher, da família e da sociedade porque ela ameaça os valores do patriarcado.

A separação da antiga união "serpente - mulher" corresponde à mais profunda cisão na psique feminina. No mito, a mulher não deveria ter acesso à serpente, não deveria retomar o conhecimento primordial de que ela e serpente um dia foram uma só: a grande Deusa-Mãe, venerada e adorada como geradora da vida. A partir do momento em que o mito do Jardim do Éden atribui o mal à serpente, produziu-se o alijamento do feminino de qualquer poder interior, auto-suficiência ou sacralidade.

A mulher passa a ser vista com desconfiança, uma vez que lhe foi imputada a responsabilidade e a culpa pelo pecado original. As adoradoras da Grande-Mãe e do sagrado feminino passaram a ser perseguidas e mortas na fogueira, durante séculos, confirmando a supremacia do patriarcado. Mulheres que não se casavam, mulheres que dançavam, mulheres que riam, mulheres que sentiam prazer no sexo, mulheres curandeiras, e todas as mulheres que destoavam do comportamento esperado eram brutalmente assassinadas. Inclusive mulheres que não aceitavam o casamento e queriam seguir uma vocação de fé. A perseguição medieval às bruxas (durante a inquisição), foi uma forma extremamente violenta de impor o patriarcalismo e combater quaisquer resquícios matrifocais da cultura.

Esta cisão na psique feminina teve enormes repercussões sociais . A figura feminina passou a ser responsabilizada pelo pecado original, pela queda do paraíso, pelas dificuldades e sofrimentos de sua própria condição de mulher. Mulheres que tentavam sobreviver pelas regras do patriarcado passaram a ver com desconfiança outras mulheres (suas irmãs ancestrais seguindo as tradições primordiais). Além da queda do Paraíso, ela era responsabilizada por uma queda ainda mais terrível: a queda do poder feminino, a inferiorização da mulher. E isso persiste até os dias de hoje: traições masculinas consideradas naturais contrastam com o forte repúdio à figura da mulher-amante, destruidora de lares e da sagrada família (como ainda se prega em muitas religiões neopentecostais).

A maldição da serpente é a maldição do feminino, que pode ser redimido, perdoado, aceito e protegido pelo masculino somente, e somente se, for afastado de tudo o que lhe representa e de tudo o representa o seu poder.

O mito terminou por soterrar durante muito tempo os vestígios das Grande Deusa cultuada na velha europa e em várias outras culturas em épocas remotas. Com a Grande Deusa apagada ou diluída pelo sincretismo religioso, os últimos valores e símbolos de culturas matrifocais parecem ter se perdido. Atualmente, aos poucos, vem ressurgindo o interesse pelo tema do sagrado feminino, juntamente com debates sobre os direitos da mulher, sobre a cura da psique feminina de todas as dores e sofrimentos causadas pelas tentativas de adequação à uma sociedade patriarcal que a inferioriza, sobre violências física, psíquica e emocional inflingidas às mulheres pelo simples ato de terem nascido do sexo feminino. Lentamente, vemos renascer movimentos de educação, esclarecimento e resgate dessas antigas tradições do sagrado feminino como mecanismo terapêutico de cura das aflições femininas derivadas de uma história familiar, cultural e social de grande sofrimentos e restrições.

O resgate desse sagrado primordial, dessa simbologia feminina é importante para a própria identidade valorativa da mulher, para a construção da sua autonomia interior em relação aos padrões vigentes e limitantes da sociedade do patriarcado. Mesmo com conquistas significativas que as mulheres vem tendo nas últimas décadas, ainda restam muitos territórios a serem desbravados, tanto no mundo objetivo quanto no mundo subjetivo. Há muitos códigos culturais, padrões estéticos, comportamentais, morais e religiosos que ainda cerceiam, limitam e afligem a espontaneidade emocional e psíquica feminina.

Ao feminino é atribuido culpa cultural (por homens e também por mulheres que tentam se adequar aos padrões vigentes) pela sua própria condição, pelo seu próprio sofrimento, pela tentação do mal, pelos males que a afligem, afligem sua família e a sociedade em que vive.

A cultura do estupro foi claramente delineada como base fundamental da sociedade na mitologia grega: Zeus, o principal deus grego, se camuflava de animais para estuprar mulheres gerando filhos. A cultura cristã, tentando apagar esse registro da violência, alterou alguns papéis: à Maria coube a aceitação passiva e (considerada como uma honra) de gerar um filho semeado por Deus. O valor feminino ficou resguardado apenas à figura da mãe, da esposa submissa. A trindade evoca três grandes elementos simbólicos masculinos: pai, filho e espírito santo. Silencia quanto à mulher. Os papéis femininos estão claramente definidos. Todas as mulheres podem ser aceitas, amadas e devidamente redimidas se se mantiverem longe da serpente, de sua natureza cíclica como a da lua, de seus humores naturais.

A maçã: o presente da serpente

A maçã mordida por Eva e oferecida a Adão teve vários significados ao longo do tempo. Interpretações mais antigas atribuíram à maçã o signo da sexualidade. A maçã mordida por Eva e oferecida à Adão teria sido a iniciação sexual que causou a queda do paraíso. Analisando os significados arcaicos da época em que esses mitos circulavam na tradição oral dos povos antigos, esta interpretação se torna obsoleta, embora ainda seja utilizada como referência usual em várias religiões. Na perpectiva dos simbologia antiga, de união entre a serpente e o feminino, minha tese é de que a maçã tenha sido um presente ofertado pela serpente: o presente do conhecimento de um passado primordial onde o feminino era sagrado e cultuado nos ritos de celebração à vida e à Grande Deusa.

O resgate do sagrado feminino hoje seria uma tentativa de inversão de poder (de uma sociedade patriarcal para uma sociedade matriarcal)? Não. O próprio mito nos oferece pistas disso. É muito interessante observar, pelo proprio mito, que o sagrado feminino não representa uma inversão de poderes: não substitui o poder masculino, tampouco o inferioriza. Eva não mordeu a maçã sozinha. Ela não reteve o presente, não guardou para si o conhecimento do poder ancestral. Ao contrário, ela ofereceu a maçã mordida a Adão, compartilhou com ele o conhecimento ancestral. O sagrado feminino é a perspectiva integrativa da mulher: de que é possivel compartilhar o conhecimento e coexistir em união e harmonia: a harmonia entre o masculino e ofeminino, sem profundas feridas psíquicas em nenhum deles.

#feminino #mito #serpente

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